Friday, February 27, 2009

Poesia e Verdades




[Café Botánico - esquinas de Buenos Aires / maio 2008. Um momento bom de lembrar para começar a semana.] Postado em 19/10/2008

Toda vez que penso em escrever algo para o blog, sempre me vem em forma de poesia. Engraçado isso, pra não dizer inquietante em alguns momentos. E aí eu me forço a utilizar a prosa porque tenho medo de não conseguir mais escrever sem que seja necessário rimar ou procurar construções simbólicas das coisas que penso.

E aí vem um questionamento em minha cabeça: por que eu me pego sempre tentando traduzir a minha vida em versos? A pergunta surge e eu automaticamente a coloco na minha sala de espera mental, onde já residem tantas outras sobre mim. Mas acho que domingo é um bom dia para tentar decifrar posturas inconscientes.

Como não sou algo que valha tanto assim em afirmações, pego frases alheias para tentar entender essa minha veia poética (ainda amadora, mas sempre aprendendo um pouco com “o muito que a vida traz”). Um querido, e temporariamente empoeirado em minha estante, poeta gaúcho escreveu que a poesia é a invenção da verdade.

Se eu quiser resolver essa questão comodamente, apego-me a essa afirmação e está interpretado. Eu invento minhas verdades através do que escrevo, construo sentimentos e edifico a minha vida através de palavras que simbolizam mais o que quero que exista do que o que de fato existe.

E assim, graciosamente sorrio orgulhosa de mim, porque não quero levar dessa vida apenas o que ela me apresentou de real. A minha alma se reconstrói diariamente através do imaginário, do lúdico, das levezas que nos abduzem de uma rotina por demais desgastante. Imaginar é uma forma de alimentar o coração.

Não pretendo perder isso, pois com a minha imaginação se iriam as coisas que me fazem ser bem maior. Se eu perdesse esse conflito intenso entre alma e mente, tornaria meu coração sub-nutrido, perderia a fé, abafaria a intensidade que reside em mim. Sim, intensidade. Não ligo se me interpretam como inconstante, louca, confusa, ou qualquer outro adjetivo tão comum em julgamentos de pessoas que se preocupam por demais com a vida alheia. Sou intensa e nessa única palavra, deposito todas as nuances em mim.

Essas nuances que até há pouco me assustavam, mas que cada vez mais me fascinam. Se eu não as tivesse, talvez passasse a vida numa estrada em linha reta, e de nada teria aprendido. Mas Deus me fez várias em uma só e o meu caminho está longe de ser sonolento. E talvez sejam essas tantas dentro de mim que me fazem escrever de forma tão contraditória.

Poesia, para mim, é auto-conhecimento. Não importa se eu escrevi ou se me enxerguei nos versos de outros. Drummond, assustadoramente poeta, sabe que não há criação ativa na construção de um poema. Há catarse e imposição. As palavras se impõem diante de você, passivo. É mais forte. Quem fica horas na frente de um papel em branco não faz poesia, apenas emenda palavras. Poesia surge dentro, incomoda, pede pra ser escrita, e o parto é rápido porque as palavras já saem casadas da alma.

“...Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo”.

(Trecho de A Procura da Poesia – Carlos Drummond de Andrade).

E quem vai discordar dele? Aqui dentro de mim, ninguém discorda.

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