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Friday, August 13, 2010

Reinvenção


A menina e o pombo. Rio Branco, julho de 2010.

A vida só é possível
reinventada.


Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.


Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.


Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.


Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles

Monday, March 8, 2010

Às vezes / Começo a conhecer-me. Não existo.

Álvaro de Campos era um dos pseudônimos de Fernando Pessoa. Nunca mais publiquei outras poesias aqui que não fossem minhas. Coloco então logo duas deste grande poeta múltiplo.


Às vezes

Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...


________________________________

Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.


Álvaro de Campos

Saturday, August 8, 2009

A Casa das Coisas que não se dizem

Tudo que, em mim, é palavra,
vontade de não ser bicho,
mora na minha casa das coisas que não se dizem.
Por isso é que eu falo pouco
e se crê que eu tenha Mistério
porque minha voz- se me a ouvissem -
ela é de lodo e de lama.

Mas na casa das coisas que não se dizem
moram poemas e abraços muitos,
livres, lindos
e cuidados e carinhos.

Foi na casa das coisas que não se dizem, inclusive,
que eu gostei das palavras
e que eu inventei essa brincadeira
delas ficarem bobas.

As coisas que não se dizem sempre moraram em mim,
nessa casa,
de onde,
indagora,
fugiu
esse quase um eu te amo.

(A Casa das Coisas que não se dizem - Michel Klejnberg)

Nenhum livro me impressionou tanto este ano quanto este.

Poesia ou profilaxia?

Tuesday, July 21, 2009

Neruda

Digam, isso não é lindo?

Para ler ouvindo:

this foolish things -

Si Tu Me Olvidas
Pablo Neruda

Quiero que sepas una cosa.
Tu sabes como es esto: si miro la luna
de cristal, la rama roja del lento otoño
en mi ventana, si te toco junto al fuego
la implacable ceniza o el arrugado cuerpo
de la leña. Todo me lleva a ti, como si
todo lo que existe, aromas, luz, metales,
fueran de pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien, si poco a poco dejas de
quererme, dejare de quererte poco a poco.
Si de pronto me olvidas no me busques que
ya te habre olvidado. Si consideras largo
y loco el viento de banderas que pasa por
mi vida y te decides a dejarme a la orilla
del corazon en que tengo raices, piensa que
en ese dia, a esa hora levantare los brazos
y saldran mis raices a buscar otra tierra.

Pero si cada dia cada hora sientes que
a mi estas destinada con dulzura implacable.
Si cada dia sube una flor a tus labios
a buscarme, ay amore mio, ay mia, en ti todo
ese fuego se repite, en mi nada se apaga ni
se olvida, mi amore se nutre de tua amor,
amada, y mientras vivas estara en tus
brazos sin salir de los mios.

Monday, June 22, 2009

Desencanto

Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Friday, February 27, 2009

O que há (Álvaro de Campos)

(uma flor no asfalto... assim me sinto. cansada, mas não vencida.)

O que há

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

Imagem retirada de http://3.bp.blogspot.com

Postada em 06/02/2009

Passagem das Horas



[postado em 06/10/2008]

Hoje não escreverei sobre mim porque meu corpo está cansado e não acompanha as mensagens turbulentas da minha alma. Deixe que ela grite. Eu hoje não quero ouvi-la. Então, tomo como minhas as palavras de Pessoa, em Álvaro de Campos, para expressar o que estou sentindo. Tomo como minha a foto acima, do meu caro Mingas (que me concedeu, tá?), que é um artista com as imagens. Confiram no flog Prosopopéia (fiz a propaganda... hehehe - uma mão lava a outra :-P). Esta imagem retrata a passagem das horas em um lugar que remete ao passado, onde o tempo não passa mesmo que as horas insistam. E ela é mais especial ainda para mim por ser o retrato de um cenário que fez parte de minha vida durante algum tempo: Portugal. Enfim, com poema e imagem portugueses, inicio a minha semana com um passeio pelo que estava guardado em mim.

"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero...

(...)

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

(...)

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

(...)

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

(...)

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

(...)

A direção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

(...)

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo..."

Trechos de "Passagem das Horas" - Álvaro de Campos

Saturday, February 21, 2009

Constelação

Mais uma do meu poeta tardio preferido. Explicar piada pode tirar a sua graça, mas como não se trata de nada jocoso, explico: este é um poema que meu pai escreveu para seus amores. O primeiro verso sou eu; o segundo, meu irmão Victor; o terceiro, minha irmã Ingrid; e o quarto, minha mãe, sua amada lua.

Constelação


Chegastes disputando o brilho do sol, como a estrela da manhã,
Trazendo no nome um sonho adolescente da criança que te gerou.
Te olho, espelho, e me vejo muito além do que sou,
Enquanto iluminas meu orgulho e atrais amigos como um imã.


Também chegastes para brilhar, como tua estrela irmã.
Com o ímpeto de Antares e com o seu intenso brilho,
Tens o coração do escorpião e a força de Aldebarã.
Mirando-me te admiro e me vejo em ti, meu filho.


Viestes enfim, pequenina estrela da minha alma,
E, intrometidamente, me roubastes a calma,
Inundando minha vida com uma luz que é só tua.


Três amores repartindo, irreversivelmente, meu coração.
Presentes da minha amada lua,
Que além da vida inteira dedicou-me uma constelação.

Alfredo Borba

Dois Girassóis

Abro espaço para um texto de meu pai, de quem eu herdei o coração poético dentro de um corpo fechado, sobre duas pessoas lindas que se foram: o seu velho companheiro Djalma e o seu sobrinho Igor. Pai, me perdoe a publicidade, mesmo sabendo que você nunca iria me recriminar por isso. ;-)

Saudade de ti, velho amigo.
Tantos momentos vividos.
Você exageradamente tudo:
Encantamento, entrega, perigos;
Espelho de tua cidade,
Um grito de liberdade.
Memórias, meu escudo,
Desmedidas,
Dos nossos encontros sem despedidas.

Saudade de ti, meu garoto.
Saudade de ti, meu menino.
Vida repleta,
Precocemente completa.
Alma plena de mel.
Mas quis o plano Divino,
Além da nossa frágil razão,
Partindo meu coração,
Te colocar lá no céu.

Saudade de ti, velho amigo.
Saudade de ti, meu menino.
Quisera ter-vos mais um pouquinho,
Mas juntar-vos quis o destino,
Enfim,
Como dois girassóis no jardim
A iluminar nossos descaminhos.

Alfredo Borba

setembro de 2008