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Thursday, July 28, 2011

"Transformai as velhas formas do viver"



Hoje eu faço 31 anos. Ainda me lembro de quando fiz 15 e tinha cabelos mais longos, uma pele mais viçosa e uma energia própria da adolescência. Os cabelos encurtaram e enegreceram, a pele tomou seu rumo natural e a energia diminuiu, porém tornou-se mais focada.

Na verdade, nada disso importa (tanto). Não tenho medo de envelhecer fisicamente. Não me entristeço diante dos desafios do corpo. O meu compromisso eterno é com a minha alma, com a minha mente, com o meu coração. Essa é minha grande luta que travo todos os minutos e da qual já pensei tantas vezes em desistir, mas nunca consegui fugir.

E acordei hoje revisando memórias à procura do que de fato me tornou mais “velha”. Descobri que carrego ainda os mesmos sonhos da adolescência e os mesmos apertos que maltratam meu coração de menina que ainda acredita, e nem sei como acredita, que o amor é prioridade máxima na lista de sentimentos.

Carrego o mesmo sorriso que só se mostra quando me sinto à vontade; o mesmo olhar transparente que ora afaga ora recrimina; a mesma apatia diante do que não me dá tesão; a mesma euforia quando descubro um novo lugar, uma nova pessoa, um verso, uma canção, uma imagem, diante da descoberta eterna e cautelosa da minha própria essência.

Acho que não fiquei mais velha porque não me sinto mais madura. Sou tantas aqui dentro em constante conflito que às vezes penso que vou explodir como uma tia de escola tentando conter a gritaria dos alunos em sala de aula. Ainda não aconteceu, mas o caminho quis que assim fosse e que a cada experimento eu me desfragmentasse, e deixasse um pouco de mim pelos anos.

Talvez eu tenha aprendido algumas coisas. Em teoria. Certeza, tenho apenas a de que hoje me conheço mais, embora ainda não me aceite tanto. Conheço meus demônios e meus anjos internos que fazem de mim um ser humano. Essa é a minha grande conquista nesses 31 anos. Conhecer-me.

Até me atrevo a complementar a poesia de Guimarães Rosa. O que a vida quer da gente é coragem, mas a coragem de enfrentar-se. Olhar além do espelho não é pra qualquer um. Dói, dá raiva, faz chorar e querer ficar encolhido na cama. Mas se não for pra ser assim, não vale a pena comemorar primaveras. Mesmo que seja difícil, preservo meu direito de viver meus invernos.

Que eu viva mais alguns anos nessa busca e no desafio de aceitar que tudo está em seu lugar certo, mesmo quando parece errado. E o que eu quero para mim nesse novo ciclo? Apenas paz e a capacidade de nunca esquecer as coisas pelas quais devo ser grata.

E assim seja.

Saturday, February 26, 2011

Sentimentos são pássaros em vôo


Esta não é uma imagem incrível do ponto de vista visual, mas sim de significado. Quando fui produzir o post pro blog “A Gente Viaja” no Parque da Cidade, aqui em Aracaju, presenciei a cena desses dois gansos “conversando” e tentando fazer contato físico. Tentando porque estavam separados pela grade do viveiro. Um livre; o outro desejando a liberdade. Havia naquela “conversa” um sentido de solidariedade, de urgência em reverter aquela situação, de compaixão própria dos animais da mesma espécie.

E eu pude perceber o quão difícil é sentir isso com as pessoas ao nosso lado. Os animais trazem em sua essência a possibilidade de amar incondicionalmente, de não julgar, de tratar o outro exatamente como querem ser tratados. E só um motivo me faz crer que perdemos essa essência ao longo do tempo: aprendemos a pensar e a jogar com as outras pessoas. O que falamos por vezes não é o que sentimos.

Expressar o que sente, então, para grande parte das pessoas é um sinal de fragilidade. Porque talvez o maior medo não seja de ser desprezado, e sim de ser manipulado pelo outro. Para nós, seres pensantes de um mundo cada vez mais fragmentado, antes ser filho solitário do orgulho do que companheiro do afeto.
Tenho aprendido muito com as pessoas que encontro em minha vida. E em muitos momentos acabo me criticando por tomar posturas diferentes. E, por alguns minutos, acho que deveria me tornar igual. Mas não dura muito porque uma vozinha vem de lá de dentro e me diz: seja você e continue querendo o bem das pessoas. Não importa o quanto elas te diminuam, te desprezem, ou achem que você é fácil de ser manipulada simplesmente porque você não jogaria com elas.

E eu venho refletindo sobre o sentido de liberdade. Ser livre não é ter um coração que não se mostra. As piores prisões são a da mente, a da alma aleijada e a do coração medroso. Ser livre é agir de acordo com o que sente sem medo de afastar as pessoas. As pessoas que se afastam são apenas pessoas que não deveriam permanecer. Lição para a vida: quando seus defeitos afastam alguém é simplesmente porque esse alguém já não se encanta com suas virtudes.

Ser livre é não ter barreiras para sentir, agir, interagir, errar, perdoar, perdoar-se, cair, levantar e seguir em frente.
E se eu pudesse resumir todas essas palavras em duas estrofes, usaria uma citação de Mário Quintana:

Atos são pássaros engaiolados.
Sentimentos são pássaros em vôo.


Vivam ainda que não queiram viver mais nada. Vivam ainda que doa. E, sobretudo, reconheçam o valor das pessoas que estão ao seu lado, porque elas não estão na sua vida à toa. E quando forem embora, pode ser tarde demais.

Kadydja

P.S – Bom voltar a escrever meus “devaneios” no Cibereza.

Sunday, July 18, 2010

Hipertexto balzaquiano (ou uma construção confusa sobre autoconhecimento)

Estou há dez dias de ingressar de cabeça, tronco e membros em meus 30 anos. E isso tem me feito dialogar comigo mesma como uma espécie de ritualidade obrigatória a uma mulher que carregará o rótulo de balzaquiana. Um rito que fará toda diferença quando chegar o momento. Assumirei eu o rótulo com o mesmo terror das mulheres que carregavam a letra Escarlate, ou farei desses novos anos a mais rica experiência da minha vida? Nem Freud, tampouco Balzac, podem me apontar um caminho. Até porque eu já o sei.

Tenho pensado muito sobre o silêncio como um caminho para a transformação. Não o silêncio que exclui, mas aquele que acolhe. O silêncio da voz que evita palavras ingratas. O descanso do ouvido que não permite menos do que oferece. A lealdade do coração que ama mais a si mesmo.

Calar como uma forma de autoconhecimento. Vedar olhos e ouvidos para referências externas que só provocam ruídos em sua essência. Ouvir aquilo que valha. Dizer apenas o que encontra ressonância. Sentir o que não há pretensão de ser falso. Ser imperativo em sua vontade de não mais ser pautada pelo que pensam de você, pelo que querem de você, mas pelo que você pensa e quer de si mesma.

Toda mudança é imperativa porque só surge diante dos reveses. E toda mudança passa pela pausa. E toda pausa só é legítima quando anda de mãos dadas com o silêncio. Toda pessoa muda. Toda muda, cala.

Ao calar, o ato de mudar continua imperativo, mas o caminho é, sobretudo, reflexivo. Se as pessoas bem soubessem, calariam diante do medo de expressar. O equívoco é amigo do medo. E este é ardiloso diante da ação. Despe de pureza qualquer ato que se pretenda sublime em sua essência, em seu querer. E o torna vulgar, mesmo que os olhos digam outra coisa, que o coração grite imperativo, acenando com seu cardápio de sonhos: Mude. Faça diferente. Seja você.

E o que é ser você? Não há listas de virtudes e defeitos que definam um ser humano. Somos obra de uma bagagem que nunca será despachada. Somos uma construção troncha e bela de um passado que nos marca, de um presente que ainda incomoda, e de um futuro com o qual flertamos impotentes. Julgamos saber quem somos porque evitamos aceitar que a vida dobra esquinas e nos surpreende sempre com os acasos à espreita. Somos também soma dos acasos que nos sabotam e nos fazem correr pro espelho para questionar mais uma vez: quem é você mesmo?

Não há chegada no caminho do autoconhecimento. Há uma estrada que transforma esse eterno conhecer mais belo. Uma estrada de silêncio e grito. De coisas que precisam ser ditas e de outras tantas que devem ser transformadas em pausas sonoras. Ouvi uma frase que me remeteu a este caminhar solitário: “Em uma canção, as pausas são tão importantes quanto os sons. Ainda na pausa, a canção continua”.

E só há uma chance da canção da vida continuar sem lhe ser ingrata: quando você caminha consigo mesma. E isso não significa isolamento. Não nos valemos ao construir bolhas. Caminhar consigo mesmo é viver fiel ao que diariamente te define, te molda, te certifica. É saber que de círculos não nascem quadrados, e que por isso nem toda oferta deve estremecer a sua procura.

Esse é um texto que fala sobre silêncio, caminhos, pausas, ofertas e autoconhecimento. É confuso como o pensamento humano. É hipertextual como os caminhos que nos ligam a nós mesmos. É virtual porque é passível de concretização. É líquido como os sentimentos que nos fogem pelas mãos da inviabilidade, e nos fazem sempre avançar ou recuar. Suas, minhas mãos, de qualquer um que se confronte. É uma forma de fazer entender que nada nessa vida é legítimo se não constar como cláusula em seu contrato pessoal. E que qualquer atitude sua se justifica apenas se for leal com o seu caminho, com o seu querer. Só assim.

Do contrário, é silêncio amordaçado, é descaminho disfarçado de pausa, é uma canção desafinada, é apenas mais uma forma covarde de desprezar a força de suas escolhas. E, por Deus, nunca coloque nas mãos dos outros a capacidade de escolher pelo seu caminho. É como entregar a sua vida a quem não sabe o que fazer com a sua própria. É se permitir secundário. É o único abandono insuportável.

É o que eu me permiti aprender nesses 30 anos.

Sunday, May 30, 2010

Silêncio

O silêncio também é grito. É a voz da redenção. A cor cinza que torna os olhos opacos, cegos na crença. Silêncio é sintoma do olhar que já não tolera o que está a sua volta. Não é fuga, é uma forma de encarar o tempo sem contestá-lo.

Silêncio é protesto. É a última tentativa de enxergar por fora o que te assombra, inquieta, dói. É contravenção em uma época onde se fala demais. Uma época em que viver a vida do outro dá mais tesão do que viver a sua.

Silêncio é desdém para o alheio e seu poder barato. É sabedoria de impor limites. É uma forma de criar barreiras para a ignorância. É a melodia do perdão para as almas. É caminho para encontrar a si mesmo, e preservar seus valores.

Silêncio é sonho. É a comunicação mais sublime. É a mão abstrata que pede ajuda, mas que ao mesmo tempo barra o que te faz infeliz. É um despertador de problemas. É um mergulho à procura de soluções. É retirada pra trilhar um novo percurso, mais confiante, menos vulnerável.

Silêncio é resposta.

Sunday, March 21, 2010

Aos Domingos



Eu nunca consegui ser completamente feliz aos domingos.

Domingo é um dia com cara de ultimato. Em mim, nunca soou como o primeiro dia da semana. Nunca teve aquela sensação de recomeço. Nunca me fez sentir cheiro de flores ou achar que a vida vale a pena. O domingo sempre me acorda, de conchinha, provocando solidão como um namorado que já não se ama.

Domingo é invariavelmente espelho mesmo que eu não saia da minha cama para encarar o banheiro. Domingo nunca é o dia em que eu recebo boas notícias. Você nunca chegará em um domingo carregando flores, chocolates e a tão esperada promessa de dias melhores.

Tenho fobia a noites de domingo. Existe um nome científico para isso? As noites de domingo debocham dos solitários ou daqueles que amam o passado, como eu. Não há misericórdia no pôr-do-sol de um domingo. Não há compaixão dos casais que saem à rua para aproveitar o dia. Não há sol que aqueça o coração ou comédia no cinema que conforte o que insiste em ser triste.

Minhas melhores poesias nasceram aos domingos. Porque nascem do nada ou do tudo que gangrena esse vazio. Não sei de nada, mas sinto tudo. E o confronto desenha palavras. Aos domingos, todas as minhas versões me convidam à reflexão. Sou múltipla e esquizofrênica. Não consigo ser escudo para combater o externo. Nem adiantaria. É o que apodrece silenciosamente aqui dentro que me incomoda.

Aos domingos não me expulso. Aos domingos não sinto saudade. Aos domingos me alimento apenas do que não existiu, e me engasgo com o anúncio da segunda-feira. Aos domingos, os meus gatos, e todos os gatos do mundo, são mais amáveis com seus donos porque podem sentir o peso das horas que se arrastam. Aos domingos, as janelas são templos de oração e espera.

Tudo o que se sente e não se deve sentir pisca em neon aos domingos. O coração cresce desordenadamente como uma metrópole poluída e barulhenta. É inútil ouvir canções em alto volume. Os ouvidos estão voltados para dentro.

Ainda que insuportável, o domingo é necessário. É quando nos deixamos abandonar. A bagunça do quarto e a sujeira da mente são permitidas. Somos mais humanos em dias de hoje. E como tudo na vida, ele sempre se despede, e passa.

Wednesday, January 20, 2010

Diálogo entre o coração e o mundo


A Zygmunt Bauman, o pai dos sentimentos líquido
s.


- Aqui fora faz calor.

- Aqui dentro também.

- Mas o calor que aqui fora faz, é o sol quem traz.

- E aqui dentro é por querer tanto bem.

- Se bem tanto quer, por que o calor atormenta? Deveria ser um bom conforto pra você que está quase morto.

- Seria se acolchoado por tantas palavras fosse esse coração. Ou ainda embalado pelos gestos que enxotassem a solidão.

- Então o calor é apenas de esperança?

- Há, meu amigo, em todo peito uma criança. Olhos que pulsam assustados com o futuro. Na maneira como eu vivo, não há nada seguro.

- Sei muito sobre o que você discorre triste. Eu sou o mundo e carrego todos os pesos. Segurança em mim não existe. Sou palco dos humanos e seus erros. O futuro não posso controlar. Mas você, bem guardado em sua casa, é palco de um só ofício: amar.

- Não esqueça, mundo, que vivo em uma casa onde a residência é o seu palco. Sou vítima dos pesos, dos erros, do asfalto. Sou um soterrado pelos terremotos da mente. Como posso amar quase morto, dormente?

- Mas querer tanto bem é um passo para amar.

- Seria se você fosse outro, mundo. Seria se a minha casa fosse um lar.

Kadydja Albuquerque > 20.08.2009

Sunday, December 20, 2009

Carta ao Papai Noel (quebrando o gelo)

Querido Papai Noel,

Acho que faz uns 20 anos que eu não te escrevo uma carta. Parei de acreditar, inclusive, que o senhor era de verdade quando um amigo sem graça da escola me alertou sobre a sua não-existência, e daí as forças do universo desencadearam uma cascata de desilusões que até hoje não param de acontecer. Sendo assim, resolvi por conta própria e sem terapia de regressão que voltaria a acreditar no senhor como uma nova tentativa de desvendar se é realmente o retorno de saturno que anda sabotando a minha vida ou o fato de eu ter perdido a crença no lúdico desde aquele dia na escola.

E por que não acreditar, não é mesmo? Acreditamos em tanta coisa, principalmente eu, que sou solteira, independente e estou fazendo MBA em fanfarronismo masculino. Antes eu continuasse acreditando no senhor, no Coelhinho da Páscoa, na Fada do Dente e nos Smurfs, os quais já cheguei até a visualizar uma vez embaixo da minha cama (sim, foi muito real e nessa época eu ainda não bebia). Inclusive, passa agora pela minha cabeça, e não é preciso fazer uma pesquisa antropológica para chegar a essa conclusão, que a culpa não é sua, mas da Xuxa pela evolução hormonal e comportamental das moças da minha idade. Perdão.

Somos, antes de tudo, como posso dizer... ingênuas. Sim, claro, como não seria quando você cresce martelando seu cérebro com o mantra “Doce, Doce, Doce, a vida é um doce, vida é mel”? Mas o que foi pior é que as mulheres como eu, hoje com 29 anos, solteiras e independentes, vivenciaram uma sinastria cósmica e midiática em um momento muito determinante para a construção da nossa personalidade quando a Xuxa lançou a canção mais inviável do mundo. Éramos pré-adolescentes, começando a descobrir o frio na barriga por causa daquele menino da sala que hoje está com 2 filhos e uma mulher desleixada, quando a Xuxa nos presenteou com Lua de Cristal.

Analisando bem a canção, eu penso em propor um projeto de lei que proíba a rainha dos baixinhos de fazer novas versões para os próximos 64 XSPB. Não, tudo pode ser e se quiser, será, não existe. Talvez a Sasha consiga praticar essa frase porque ela vive em um mundo cor de rosa (e você não sabe, Santa, como me dói dizer isso tendo em vista que nascemos no mesmo dia, apenas com um pequeno intervalo de anos). Sonhos sempre vêm pra quem sonhar é, no máximo, uma péssima estrofe (e só perde para as tentativas de composição da Sandy). Buscar a sorte e ser feliz podia ser um mote para campanha de lotéricas, mas não rola. Sorte não se busca. Ou você é abençoado com pérolas do acaso, ou vai passar a vida tendo que suar pra ser feliz. Fato.

Mas a melhor parte, Papai Noel, é quando as Paquitas entraram nesse projeto messiânico e nos fizeram acreditar que somos invencíveis e que juntos não existe mal nenhum. Realmente, por três anos consecutivos, eu achei que isso era possível porque a minha turma sempre era campeã da gincana de final de ano. Só que depois que eu comecei a usar calças jeans e tive intervalos em vez de recreio, essa afirmação ficou meio obscura pra mim. Ela foi elucidada no meu primeiro carnaval em Salvador, quando eu percebi que estar junto de 1 milhão de pessoas faz mais mal do que ficar sozinha em casa assistindo o desfile das escolas de samba. Sem falar que foi um processo penoso entender que o príncipe encantado não chega em um cavalo branco. Mas sim, ah isso sim, o que não falta no caminho são variações do Sérgio Mallandro tentando te convencer do contrário.

Então, voltando à construção de argumento, afirmei que as mulheres da minha geração são ingênuas. Preciso explicar? Acho que não porque eu acredito que, assim como Deus, o senhor é onipresente, onisciente e onipotente, ou senão você teria que ter uma equipe maior do que a do Google para dar conta de tanta gente carente. Além de ingênuas, nós nos metemos em outra sinastria cósmica, astral e desonesta ao nos colocar antes de uma geração de meninas que cresceram ouvindo Ivete Sangalo e agora estão no mercado. O senhor há de concordar que uma menina que se desenvolve cantando “Me abraça, me beija, me chama de meu amor” está anos-luz na frente dessas desajeitadas balzaquianas que passaram a infância pintando um arco-íris de energia. Enquanto fazemos a linha “seu irmãozinho é uma gracinha, e eu sou todinha do bem”, elas já estão, todas juntas, celebrando a vida, fazendo um auê e mandando ver.

Parênteses: tenho uma admiração sincera pela geração 2000. Nativos digitais e hedonistas que não passaram por solução de continuidade alguma. Já nasceram em um mundo pleno de possibilidades e encaram a vida sem grandes problemas. Claro, sempre existem as almas velhas que acham bonito cultivar a inviabilidade do passado, mas a essência está ali.

Bem, Papai Noel, vamos ao que interessa. Tive um ano difícil em todos os campos da minha vida. Passei pelo meu ano 9 com a cabeça erguida. Chorei baldes, mas ocupei o meu, só o meu, espaço. Tá, viajei bastante, conheci novos amigos, mas o processo de auto-conhecimento tem que ser balanceado com alguns momentos bons, não é mesmo? Do contrário, qualquer mulher que encara o espelho, a solidão e os desafios profissionais durante o Retorno do lastimável do Saturno terminaria a vida ali mesmo, envenenada na sala de casa, ao som de Edith Piaf.

Não vou pedir nada diretamente. Até porque esse é um primeiro contato depois de anos e uma tentativa de quebrar o gelo. Sem falar que se o senhor realmente existir e for onipresente, onisciente e onipotente, já está careca de saber qual a minha lista pequena com 39 desejos. Sei que alguns eu talvez só conquiste depois que me mostrar mais confiante da sua existência. Por enquanto, acho que é isso. Aqui estou eu, tentando ser menos cética. Avisa pro Coelhinho da Páscoa que a carta dele vai chegar. Quanto à Fada do Dente, espero não encontrá-la nem tão cedo. Já os Smurfs, esses podem ficar afastados também. Até hoje não me recuperei daquele encontro noturno.

Feliz Natal pro senhor, pra Mamãe Noel e pras renas.

Kadydja

Tuesday, December 15, 2009

Caminhar



Ando vivenciando conflitos e não tenho problema algum em afirmar isso. Problema, eu tenho em dizer quais são. Não porque queira esconder dos outros, mas porque eu gostaria de vomitá-los, todos, em um banheiro público de beira de estrada e dar descarga, só para ter a certeza de que eles nunca voltariam a me encontrar.

Mas a vida é cretina. É aquele tipo de amigo falso que te vê fazer um monte de escolhas, sabendo que lá na frente as conseqüências chegam, e ele vai poder dizer com toda pompa: eu te avisei. Os meus conflitos não residem no arrependimento, muito pelo contrário. Talvez seja um desvio de caráter meu, mas eu me arrependo de muito pouca coisa na vida. E sempre são coisas que eu não fiz ou não disse e, por isso, o mundo girou ao contrário do que eu esperava.

Os meus conflitos são específicos de fim de ciclo. É quando se avista o final de uma estrada e você se pergunta: e agora? O que eu trouxe comigo? O que vem pela frente? O que eu sou ou, mais cruel ainda, que quero ser na minha vida e quanto eu já caminhei pra isso? Caminhar é um verbo sensacional. Estou lendo um livro em que a autora fala sobre o exercício de escolher uma palavra para definir a sua vida no momento. Ela só consegue pensar em verbos. Eu paro e penso sobre mim, e também imagino minha vida toda resumida em um único verbo: caminhar.

Até cheguei a ficar balançada entre Caminhar e Esperar. Mas eu não sei esperar. Esperar não é um verbo que resume minha essência. É algo que eu busco como certificado de evolução pessoal. No dia em que eu conseguir esperar algo, me sentirei melhor comigo mesma. Eu vivo com pressa. Quero tudo agora e não basta vir de qualquer jeito. Tem que ser do jeito mais perfeito possível. Perfeito como eu não sou, perfeito como eu exijo que sejam os outros. Não que perfeito seja não ter erros. É ser exatamente do jeito que eu imagino. E, sim, imaginar poderia ser meu verbo também, porque é uma fonte que nunca vai cessar aqui dentro. É o meu alimento quando olho pra fora e tudo acontece, ou nada acontece.

Então eu fico com o Caminhar. Saio caminhando assim, procurando perfeições construídas em minha mente eufórica. E percebo, ao olhar para trás, que eu já caminhei centenas de milhares de quilômetros, e cada trecho de um jeito. Houve momentos em que eu apenas caminhei, vagarosa, contemplando o ambiente. Em outros, marchei firme e com a segurança de um olhar sempre ao norte. Tiveram tempos que saltitei de mãos dadas; outros, me rastejei; em alguns, dei passos para trás e quando me senti segura, saltei. Mas eu nunca parei de caminhar. E isso é muito perigoso, porque parar é também um verbo de evolução, ainda que seu sentido seja contrário ao do verbo evoluir.

Talvez seja o primeiro momento em minha vida que eu pense em parar tudo. Ou seria, silenciar? Impossível. Sim, silenciar é um verbo rejeitado pelo meu corpo. Gosto de dizer as coisas e sempre busco a melhor forma. Embora eu nunca consiga achar a melhor forma. A forma como eu digo é sempre desengonçada. Nessa hora, eu rio de mim. E isso é um efeito do meu caminhar. Eu já me aceito como uma espécie trágica de oradora (ou seria de realizadora?). Falta agora eu aceitar outras coisas. Aliás, falta eu me preocupar menos com os olhos que me assistem caminhar. Estou aqui, marchando mais uma vez pela vida, quase certa do que me motiva, quase louca por não saber onde vou chegar e o que vou levar de tanto caminho. Não deveria pensar em olhar pros lados. Porque, no fundo, os olhos que me fitam carregam a preposição errada. Eles olham PARA mim, e não POR mim.

Escolho meu próximo tipo de passo, tento mudar minha condição de objeto direto para sujeito, e continuo pensando nos meus verbos sem predicado.

Friday, November 20, 2009

Mundo imaginário



O primeiro senso é a fuga. Essa é uma frase de uma das músicas do Teatro Mágico. Conheço muita gente que não gosta do grupo, e eu respeito, mas temos que concordar que as letras do Fernando Anitelli são geniais. Eu sou uma pessoa das palavras mais do que das melodias. Talvez porque goste tanto delas, elas colam em mim. E a esse fato acabam me atribuindo uma memória fora do comum. Não é isso. Eu dou atenção às palavras, observo, escuto, gravo e reproduzo.

E essa frase do OTM é uma das zilhões que me tocam, que eu gostaria de ter escrito e acabo adotando como um bicho de estimação. Alimento, cuido, sorrio ao ouvi-la tantas vezes for. Porque é verdade. Pelo menos o é em mim. O meu primeiro senso, sempre, é a fuga. Todos os dias eu quero fugir, durante vários momentos, pra meu mundo imaginário. Lá, eu só faço o que gosto, no tempo que não corre, com as pessoas que eu escolhi. Lá os sorrisos são sinceros e os elogios também. O olhar é curioso, o toque não tem pressa, e o dia amanhece mais tarde e entardece mais cedo.

No meu mundo imaginário, eu não busco o tempo nem o maldigo. Eu sou o tempo. As coisas acontecem na cronologia do meu desejo. Avançam, retrocedem, pausam. Pra lá eu não carrego carteira nem roupas apertadas. O meu cabelo é sempre liso e a minha pele tem a cor de três verões. Sou mais alta e isso nem importa de fato. O que me fascina é que lá eu carrego em mim tudo que este mundo em que vivo me furta.

Tenho uma voz que encanta e canta todas as canções que eu calo. A fuga é voz, é a palavra que dessa garganta não sai, é a poesia que não faz parte do meu imaginário. Porque a minha poesia é um portal entre os meus mundos. Minhas palavras em verso são o meu manifesto de realidade. Não há qualquer senso lúdico no que eu escrevo. Eu vivo de fato o que verso, mas não verso o que imagino.

O que imagino é meu, universo não-compartilhado. Eu sempre venço no final. Eu sou a mocinha. Não há bandidos. Não há rancor, ódio, inveja ou dedão sem a unha do pé. Vocês deviam ter a chance de me conhecer neste meu mundo. Sou bem mais interessante porque sou eu, ali, longe do panóptico. Uma mulher de nome diferente, mas igual a todas as outras.

Tuesday, October 6, 2009

A insônia e o coração-alarme



"I'm discontented with homes that I've rented. So I have invented my own" - by Pink Martini (feat Jimmy Scott) / Tea for two


Tenho insônia e meus gatos dormem. Não é uma falta de sono por excesso de preocupação, ou de estresse, ou de tristeza. Nada disso me faz despertar. É insônia de quem tem a alma fervilhando de possibilidades. Aprendi a gostar de ter esses momentos só meus no avançar da madrugada: boa música, leite com chocolate e uma tela em branco.

Dá pra pensar na vida, pra reprojetar a vida, pra deixar que a vida aconteça. Esse é um problema contemporâneo: as pessoas não esperam mais que a vida aconteça. Somos programados dentro de uma rotina diurna e vamos dormir frustrados porque não conseguimos fazer todos os deveres dos outros e pros outros. Adormecemos mais incompletos ainda porque não conseguimos parar para refletir sobre nós mesmos, ou assistir aquele filme, continuar a leitura de um livro ou ainda ficar mais tempo com os seus.

Não esperamos mais que a vida aconteça porque vivemos em um mundo apressado. Tudo é um teste de competência, de habilidade, de dinamicidade, de limite pessoal. Precisamos nos mostrar sempre conectados, atualizados, rápidos, múltiplos, submissos, solícitos, e não importa o que você de fato é. Você precisa apenas ser algo interessante para o outro.

Bullshit. Gosto sempre de observar os meus gatos e aprender com eles. É engraçado que sempre quando estou estressada ou triste, algum deles vem até a mim e fica me encarando com cara de superioridade. “Você é uma boba”, até ouço eles dizerem. E é isso mesmo. Somos todos bobos à procura do que não nos preenche, sempre com essa mania suicida de racionalizar tudo.

Acredito que racionalizar é importante em alguns momentos da vida, mas nada substitui a voz do coração. Quem exercitar um pouco essa ligação, vai saber utilizá-lo como uma bússola que te mostra o que é certo, o que é errado, o que não frutifica, o que apodreceu. O meu coração não é uma bússola e sim um alarme enjoado que soa sempre. E isso me faz entrar em conflito constante com o que eu sou e o que eu sei que eu deveria ser. Complicado¿ Eu diria intrigante.

E assim é o coração de toda pessoa. Ele sempre fala melhor à noite, a essa hora. Agora, por exemplo, enquanto eu escrevo e ele soa me anunciando um mundo bem mais interessante pela frente.

Saturday, October 3, 2009



Fé. Duas letras e carregam a força de todo alfabeto. Fé não se pega, não se mede, não se oferece. Está aí, de graça, para quem quiser senti-la. Eu todos os dias cuido da minha fé, como cuido dos meus gatos e do meu cabelo. É parte de mim e não me imagino sem ela. A vida já é árdua demais quando acreditamos no que nos move e nos condiciona a situações boas ou ruins; e seria mais difícil ainda sem ela.

Hoje acordei e li um salmo de São Paulo: “... esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”. Verdade. Não é preciso acreditar em Deus ou em seres encantados para crer que o desapego ao passado, a serenidade em relação ao presente e a confiança diante do futuro é o que te faz conseguir aquilo que deseja. E essas atitudes se sustentam na fé em si, no outro, naquilo que é abstrato.

Eu acredito em Deus. Acredito nas forças do universo. Acredito em mim e nos outros. Por muito tempo tentei entender o que não se deve. Entender não é o verbo melhor. Estou incorporando outro a minha vida: ser. Não é fácil. Somos seres curiosos, queremos respostas para perguntas que só nos machucam, queremos nos encaixar em padrões. E as respostas da vida não são dadas como em uma entrevista ping-pong. Elas demoram ou elas nem surgem. Nos dois casos há um único motivo: a resposta está em você.

A fé está em você. A festa está em você. O universo é você porque ele é seu. E aí não tem pra onde correr. Só há um caminho: o autoconhecimento. E esse caminho é duro, muitas vezes negro, revelador. É preciso querer se revelar. Eu já não sei se estou falando de fé ou de caminho. Acho que dos dois. Fé e caminho são almas gêmeas. A chave talvez seja o desapego ao resultado, ao fim da caminhada, ao que vamos encontrar.

O outro está sempre ali, à espreita, a provocar nossos sentidos. E nós deixamos porque é muito entediante viver apenas em si. O autoconhecimento não pode ser isolamento. E é na permissão da entrada do outro em nossas vidas que nossos átomos se inquietam, que surgem os ruídos na alma, os julgamentos de postura, os confrontos de essência.

E pra viver e ser com tudo isso é preciso ter fé. A fé que cantam os músicos, que escrevem os poetas, que rezam os religiosos, que negam os ateus, a que recorrem os desafortunados. É a mesma fé e nunca é a mesma. É o anoitecer em silêncio, a presença distante das estrelas, a vitória que vence o mundo, o ópio do povo, a única saída.

Fé. Duas letras e carregam o sonho de uma humanidade.

Foto: St Patrick's Cathedral - NYC.

Friday, October 2, 2009

Enjoo

Eu acho que estou passando por uma crise criativa. Ou melhor, por um enfrentamento de essência. Sempre que eu tento escrever um texto corrido, um conto, uma crônica, um devaneio qualquer, eu me esbarro em versos. Cansei de versos. Mania chata de querer colocar a vida em estrofes.

Eu nunca tive métrica. Acho a rima algo escorregadio. Eu só queria escrever um texto banal sobre a minha vida, o meu dia, meu ano, meu mês. Comentar o meu horóscopo ou minha jornada de trabalho. Falar sobre um show que eu assisti ou um programa de final de noite com amigos. Queria que esse meu blog fosse mais leve, mais atualizado, mais lido, mas tudo.

E no entanto, não quero escrever sobre nada disso. O que eu tenho de interessante pra dizer que as pessoas queiram acompanhar? Vou ser mais uma que opina sobre as Olimpíadas, o Pré-sal, o último clipe da Madonna, ou a tsunami na Indonésia. Eu não. Eu queria mesmo escrever algo que não fosse sobre mim, mas que não tivesse 75 milhões de pessoas opinando.

Queria escrever uma nova versão da Hora da Estrela. Tenho tantas mulheres dentro de mim e não consigo transformá-las em personagens. Será porque eu não percebo o mundo do qual eu faço parte? Ando sem referências, e ao mesmo tempo com tantas histórias que me provocam, mas que fogem de mim quando estou em frente à tela branca.

Acho que eu cansei de ser eu, assim, versada. Será? Tava demorando.

Ou pode ser só um surto de sexta-feira à noite.

Sunday, August 9, 2009

Pai



Você me aceitou em sua vida
como um presente, fruto de amor
de um amor que não se finda
e eu fui crescendo a sua semelhança
silêncio, calma, cética
boba, coração gigante, alma nômade.
Pelo destino, eis um amor imposto
que aceito e agradeço todos os dias
um porto, tão seguro que me faz ter medo
de perdê-lo.
Talvez eu não seja a melhor das filhas
mas você é o melhor de mim.
Meu pai. Meus olhos. Minha certeza.
Minha ausência. Minha saudade.
A ti, meu infinito amor.
Meu coração teimoso.


Pai, Feliz Dia! Mais uma vez longe... que filha é essa hein? Mas dia 21 está chegando e vamos comemorar Dia dos Pais, das Mães, aniversários e tantos feriados na Big Apple. Prepare-se para as fotos de orkut.. kkkkk. Contando os dias...

Saturday, August 8, 2009

Mimo do tempo

Como é tolo o coração de uma mulher.
Ingênuo e pleno de fantasias banais,
Afogado em memórias nunca existidas
Das mais perfeitas investidas
Do menos perfeito rapaz.

O coração de uma mulher só não é mais bobo
Que seus gestos ansiosos
Que seus olhares pagãos
Que sua boca seca e escancarada
Diante do paliativo da solidão.

Afinal, de que adiantaria ser lúcida
Se toda graça da mais boba mulher
está em acreditar
que o mais excitante futuro
não é taquicárdico, é seguro?
E que isso tudo é apenas um mimo
... do tempo.

Kadydja Albuquerque



Poesia não se explica. Nem se decifra. Sente-se. O que eu escrevo é exercício de pacificação. Tentativa “bonitinha” de organizar em palavras a confusão de tantos sentimentos. Amo, odeio, desejo, repudio, choro, rio, brinco, travo, construo castelos suntuosos, e me escondo em cabanas de palha.

Não tenho conserto. Vou ser assim pra sempre. E porque eu quero, porque preciso desse frio na barriga, desse olhar catatônico que às vezes me pego fazendo na janela. Janela física, com rede, que dá pra um céu que sempre me acalma. As minhas janelas abstratas também acabam em um céu imaginário. Nele, é sempre dia. É sempre verão.

O que há no céu que tanto me fascina¿ Deve ser a imensidão. O azul. O céu como a pintura mais fiel do infinito, como o mimo do tempo tentando controlar a minha ânsia de amanhãs . Olhar para o céu e ver movimento. Perceber o redondo ciclo da vida, das estações do ano, e sentir que minha alma acompanha, integra esse universo, alterna calor, alegria, tristeza, solidão, esperança, desalento.

O que há no céu, há em mim. Há em qualquer um.

Monday, July 20, 2009

Rápidas de hoje

Aos meus amigos, desejo meu abraço forte e sincero. Abraço esse que eu não pude dar em vocês hoje. Andam dizendo que eu estou muito "cult", mas é isso, my felas, pouco tempo pra muito trabalho. Oc, Rod, Nandeeenha, Elô, Carol, Lula, Quico, ... saudadinhas de vocês. Não me sabotem. ;-)

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Sábado fui, com meus amigos e colegas de trabalho, Lúcio e Dudu, entrevistar Dona Nadi, mestre da Cultura Sergipana, mulher de prosa extensa e risadas fáceis. Adorei conhecê-la. Adorei conhecer Visconde. Adorei mais ainda perceber que o que torna uma pessoa interessante é menos o que ela faz, e mais o que ela sente. Estou trabalhando no perfil. O segundo para o guia e o site Divirta-SE. Foto de Lúcio Telles (depois eu posto a minha tocando cuíca :-P).

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Sim, Caetano provocou surpresa ao abrir o show de ontem com "Kuduro"; cantou "Sem Cais"; abriu os braços em "Lapa"; rebolou em "Eu sou neguinha"; repetiu a versão lindíssima de "Aquele frevo-axé"; e me fez chorar de novo ao encerrar o show com "Força Estranha". Não me canso.

Vou repetir um comentário que fiz em um texto sobre o novo álbum no Overmundo: "É isso, Caetano tem cacife para experimentar, inovar, renovar, sem se preocupar em agradar. Caetano é isso. Múltiplo e surpreendente. Ontem teve o show dele aqui em Aracaju e eu fui assistir pela segunda vez (a primeira foi na estreia do Canecão).

E foi interessante porque eu já estava "preparada" para a "porrada" que é assistir ao Zii i Zie ao vivo e em muitas cores. Só não foi mais emocionante que assistir no Rio, sendo sergipana, e vendo a reação dos cariocas diante de canções como Lapa, Falso Leblon, Perdeu, e suas projeções de fundo de palco.

Parabéns a Caetano por acompanhar a dinamicidade da cultura e suas apropriações; por não se deixar rotular; por exercer tão bem o desapego à forma e dar lugar à criação livre, aberta e sem medo das críticas".


Quinta-feira tem Orquestra Sinfônica com a renomada pianista Maria João Pires no Teatro Tobias Barreto. Vale muito a pena. É isso, ando muito cultura mesmo, mas como escreveu Shakespeare: "mostre-me um homem que não seja escravo das suas paixões".


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E só um último comentário... o que é Cem anos de Solidão, do Gabriel García Márquez? Sim, leitura tardia, e sambando pra ler em espanhol. Mas eu não ia me perdoar se eu morresse e não lesse esse livro. Como eu não sei quando vou morrer, comecei logo. ;-)

Sunday, July 5, 2009

Domingo Chato



É estranha essa sensação de precisar escrever e não saber o que dizer. Aqui dentro, tudo pede palavras, construções frasais que façam, que me tragam sentido. Mas a mente não me traz repertório. É um processo quase esquizofrênico de buscar o que dizer, simplesmente para aliviar essa sensação. Mas eu constato que, realmente, não tenho nada de importante para dizer neste momento. Nada.

Qualquer assunto que eu pense é bobagem. Não vale um sujeito, um verbo e um predicado. Muito menos um aposto. Que coisa chata. É isso, tudo anda chato neste momento. Deve ser meu inferno astral combinado com o final do meu ano nove, com o segundo ano do meu Retorno de Saturno e a minha TPM do mês. Essa conjunção deveria ser produtiva pra mim. Eu poderia enlouquecer de vez e ter tanta coisa a dizer. Ao contrário, não quero falar de mim. Enjoei desse exercício.

Talvez a saída seja criar histórias, personagens. Ou talvez seja não dizer mais nada e tentar terminar a pilha de livros que eu tenho aqui em casa. É isso, vou ler. Porque já tem muita gente escrevendo, construindo histórias, contando fatos.
E assim, vou esperando o 28 de julho chegar e acabar logo com essa sensação de desprezo pelo mundo.

Enquanto isso: ai, sãp.

Wednesday, June 24, 2009

Há.

Não há dor, só imensidão. Não há choro, mas lágrima velada. Não há túnel, há uma luz vacilante. Há céu, nuvem, calor. Sim, há muito calor. Há pressa, mas não há apelo. Há quase uma certeza, quase aquela coisa de sorte. Há uma coruja que sobrevoa. Ainda agora houve uma brisa. E um pouco de fé também sempre há. Se há cuidado, há mais carinho. Há pegadas, há caminho. Sim, há um belo caminho. Há lida, vida, recolhida. Não haverá partida. Há tanta chegada, há frio na barriga, e haja força. Haja força. Haja força. Há corpo, mas há limite. Há olhar, convite. Há história, geografia, matemática, português. Há vez. Há uma grandiosa vez. Há destino, crença, desatino, esconderijo. Há canção. Há um milhão de canções. Há tantas canções quanto pensamentos. Não há lamento. Não, não há recuo. Há coisas caladas, silêncio. Há sorrisos. E haverá gargalhadas. Houve choro, cara fechada. Há sabedoria agora. Uma sapiência miúda, rastejante, a conta gotas. Há novela na TV, e uma revista densa. Há tempo pra pensar, mas há mais ainda a vontade de dormir. Há saudade. Sim, haja saudade. Sempre haverá a saudade. Há você, eu, os outros. Há meus pais. Há o Chico Buarque e seu talento. Há aquela maldita canção de Chico. Há uma vela acesa e meus santos empoeirados. Há um São Francisco sem a pomba em seus braços. Há Iemanjá. Azul, em minha parede. Azul também há em um terço. Há um troço aqui dentro quando não velo reza. Houve vômito. Só não houve ainda o vômito final. Há ainda muita coisa aqui dentro. Há vida aqui dentro. Há batida. Há calor. E haja força, haja força. Há um bonsai morto em minha sala. Há preguiça, miado de gato. Há livros, tantos livros. Há solidão, mas não há dor. Só imensidão.

Kadydja Albuquerque

Monday, June 22, 2009

Diquinha - Charlie Parker



Hoje eu voltei a ouvir minha pequena coleção de Clássicos do Jazz. E escolhi ouvir Charlie Parker, o Bird. Charlie foi um incrível saxofonista que junto com outros caras "fracos" como Miles Davis, Dizzy Gillepsie e Thelonious Monk lançaram ao mundo o Bepop, jazz moderno e cheio de improvisações. Não gente, eu não joguei no Google... eu gosto de ler mesmo sobre os músicos que me tocam. :-P

Enfim, ando sem muita coragem pra escrever. A vontade vem, mas não chega forte o suficiente para combater meu sono. Ainda mais quando eu coloco Bird pra tocar. Aí eu só quero ficar de olhos fechados e esperar que a noite me embale com bons sonhos. Sim, porque depois de um dia cheio como hoje, eu mereço bons sonhos no mínimo. E se eu puder escolher, quero sonhar com um lugar ensolarado, mas que não tenha tanto calor. Pode ser uma praia, e nesse praia, eu terei 10cm a mais, cabelo um pouco mais liso, um corpo bronzeado e um sorriso enorme. Eu vou encontrar só pessoas legais que vão me chamar pra seguir sorrindo pela vida e acreditando que ela não é tão traiçoeira e mesquinha assim como tenta me convencer a lida. No meu sonho o mundo vai girar mais rápido e eu vou acordar com aquela sensação de que tudo passa, tudo se renova, tudo acontece e que o importante é continuar andando em frente.

Bons sonhos também.

Friday, June 12, 2009

Dia dos Namorados

Tá, tudo bem, hoje é dia dos namorados. Um dia inviável pra tentar jantar com os amigos em algum restaurante. Vamos deixar a peregrinação para aqueles que possuem uma metade. Mas pra falar a verdade, como diz meu amigo Mú, dia dos namorados é coisona.

Nao, não é porque eu estou solteira. Estou por "quase opção". Vamos pensar pelo lado positivo. Dia dos Namorados onera o seu orçamento. Ninguém compra um pacote de meias brancas pro namorado ou um CD da Calcinha Preta pra namorada. Comprometidos que se prezem gastam dinheiro com as suas amadas. Dão um bom presente, levam pra jantar e depois... ah, depois. Ok, essa pode até ser uma parte que faz falta, mas em um mundo moderno e livre, ninguém precisa comprar todo o pacote, não é mesmo?! ;-)

Sem falar que tem muita mulher hoje feliz porque é o dia da "oficial". Sim, sim, quem namora corre esse risco. Aí depois sábado à noite, ela fica em casa vendo o DVD duplo de Maria Bethânia com que seu amado a presenteou enquanto ele sai pra beber com os amigos. Ainda tem aqueles seres masculinos que dizem: "amor, hoje vai ser um inferno comemorar. Vamos deixar pra amanhã, certo?!", e a coitada vai dormir achando que seu namorado é super prático, tem bom senso, e quer evitar contratempos em um dia importante. Só que o sábado pós-12 de junho nunca chega.

Meninas, solteiras ou não, vamos ser espertas. Namorado que é namorado fica contigo na fila do restaurante durante 2 horas ou quando você chega do trabalho ele está com um big presente pra te dar e um jantar feito, pode ser encomendado também. Afinal, mulher nasceu pra ser mimada. Fica a dica.

Eu não me lembro do último dia dos namorados que comemorei. Portanto pra mim não faz grande diferença estar solteira. Vou encarar como mais uma sexta-feira em que eu me jogo pela cidade com meus queridos amigos e celebro essa vida tão mágica. Como diz o sábio ditado popular: antes só do que mal acompanhado.

Mas eu ainda assim acredito no amor. E escrevi sobre isso recentemente. Sou fã de casais apaixonados. Amar é muito bom, pelo menos eu acho né? Fui convidada por minha amiga, fotógrafa, turismóloga, viajante, cozinheira, vegetariana Mel Warwick para escrever um texto sobre o amor para sua exposição de fotos "UM a UM". Eis o texto abaixo para ninguém achar que esse é um post de uma mulher mal-amada. ;-) Até porque eu sou muito bem-amada, mas eu escolho os momentos. Essa independência ainda me derruba.. kkkkkk

Amor tem cheiro de pão quentinho, de passeio no parque em dia de domingo, de filme com pipoca no sábado à noite. Amor de novela, de verão, à primeira vista, secreto, platônico, proibido – a forma não importa. Buscamos o amor, sonhamos com ele, muitas vezes o encontramos, mas ele não encaixa tão completamente, e nos pomos a procurá-lo de novo com um presente roedor de unhas.
A esperança da chegada do novo é a velha história do chinelo, da outra metade da laranja, do príncipe encantado. E quando encontramos o amor... ah, o amor. Todo dia é feriado, toda noite é gostosa, toda canção é samba. Damos bandeira, sorrimos pro futuro, aceitamos o presente e nem lembramos do passado. Ele está no ar, naquele ar onde o céu é mais azul e quase nunca chove.


Feliz Dia do Amor, seja com quem for! :-)

Friday, June 5, 2009

Josefina e o peso de papel



Josefina, toda vida, escreveu seus versos em folhas de papel com caneta vermelha, e costumava colocá-los em sua escrivaninha com um livro pesado em cima para que eles não se perdessem pelo chão da sala. Certo dia, ela ganhou um peso de papel, no tamanho certo, da forma que ela queria, com a cor que lhe trazia felicidade.

Tantos foram os versos que Josefina se empenhava em escrever para dar ofício àquele peso de papel, que ele foi ficando pequeno, pequeno, e o vento que entrou pela janela, esquecida aberta, desafiou a sua força. Os versos caíram no chão molhado pela chuva, companheira do vento. O peso de papel teve sua sentença e foi pra gaveta. Os papéis secaram e enrugaram as palavras que compõem versos, agora, borrados.

Josefina parou de versar. Mas toda vez que abre a gaveta, o peso de papel lhe provoca. Sem querer, ela retorna ao sonho de casar palavras e de não mais esquecer a janela aberta.