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Sunday, January 5, 2014

Parto Vazio

Ao te amar
engravidei da dor.
Aninhei em meu ventre
o sonho de que ela se tornasse graça.

Eu a alimentei
lenta e pacientemente.
Pelas veias do meu corpo,
enviei força,
mas enquanto crescia,
graça não se tornava,
tampouco benção.
Nunca chegou a ser amor.

Então apelei para a sorte.
Saí por aí procurando a coragem
para que, já que nasceria dor,
nascesse bela.

E nas contrações,
corri milhas e lágrimas.
Quando ela nasceu,
parecia culpa.
Não, parecia mágoa, talvez.
Mas não era graça.
Não era sonho.

E só agora,
após noites a amamentá-la,
chegou a coragem
trazendo um presente:
o próprio presente com as mãos ensaguentadas,
anunciando que matou o passado.

A filha dor entreguei, com custo,
à visita em troca do futuro,
embalado em um papel frágil
que ainda não consegui rasgar.

Mas já não me dói o parto.
Levaram meus fantasmas,
levaram a dor que concebi.
Ficamos apenas eu e esse futuro não revelado.


Kadydja Albuquerque, 24 de dezembro de 2013.

Saturday, September 3, 2011

Conversa do tempo

Nem tão a sério
pra não ficar boba.
Nem tão leve
pra não perder o foco.
Nem tão dentro.
Nunca tão dentro.
Liberdade é estar fora.
Por uma hora que seja,
ser livre sem demora.
Assim me disse o tempo
sem vírgulas, cheio de agora:
Vai viver,
depois me conta.
Ou melhor,
depois já não importa.

Kadydja Albuquerque

Sem rima

Voltei a escrever e nem o céu estava estrelado. Voltei sem janela, olhando pra dentro.
Agora escrevo sem rima. Coisa chata é procurar pares de palavras no passado, nesta vida solitária. Mais chato ainda é este drama que não me deixa fluir, tampouco pensar...
sobre céus e janelas,
sobre pares, vidas e chatices.
São versos que ninguém um dia vai usar como presente
para alegrar uma pobre alma carente!
Olha a rima! Deixe-me por hoje, por favor. Quero versar estranha como sou. Como bem sei ser...
com minhas cortinas sem estrelas,
e nuvens,
e chatices,
e palavras que nunca combinem.

Kadydja Albuquerque (03 de agosto de 2011)

Monday, August 16, 2010

O lugar do poeta

Em todo poeta há um lugar.
Um mundo sem estradas,
um canto sem sentido
onde vivem os versos.

Um mundo diverso,
uma cidade fantasma,
onde só moram palavras,
todas órfãs da razão.

Cada poeta é um universo
que se divide em outros.
É tanto a procurar pouco.
Um grito já nascendo rouco.

A nação do poeta é um país
longe, abstrato, sitiado.
Na solidão do seu parto,
o poeta nasce pra dentro.

Kadydja Albuquerque, agosto de 2010

Monday, May 24, 2010

Caminho de volta



O caminho de volta é parte das voltas
que o mundo dá.
O ruído da porta é aconchego da rota
quando se quer chegar.
O instante do encontro é a virada do ponto
quando se precisa seguir.
O timbre da voz é o presente do algoz
quando se limita a ouvir.

Kadydja Albuquerque (25.05.2010)

Sunday, May 9, 2010

A menina e a boneca



A menina tinha uma boneca
e seu nome lhe fazia rir.
A boneca tinha uma menina
e lhe ensinou a fingir.

Fingia colo,
fingia medo.
Fingia amor,
Fingia segredos.

A menina criava mundo
para sua amiga de pano,
que em silêncio profundo,
alimentava o coração humano.

A boneca tinha uma canção,
que a menina lhe escreveu.
Um universo, um refrão,
que um dia pereceu.

Virou moça, virou ano.
A boneca foi pra estante.
Com ela, foram-se os panos
daquele universo infante.

A menina foi pra vida,
que não lhe fazia sorrir.
Criou mundo, e outras canções,
que alguns não souberam ouvir.

Virou mulher, virou ano.
O sonho já não morava ali.
Em seu coração criou pano
e reaprendeu a fingir.

Texto e Foto: Kadydja Albuquerque

Monday, March 8, 2010

Para ser mulher



Para ser mulher,
precisa muito caminhar.
Precisa entender do amor,
e com ele pactuar.

Para ser mulher,
deve andar pelo tortuoso,
com passos leves e firmes,
e um coração amoroso.

Para ser mulher,
é preciso se contradizer,
sorrir, chorar, cobrar
e deixar o outro ser.

Para ser mulher,
tem que aceitar o desafio
imposto pelo mundo cruel,
como um homem vazio.

Para ser mulher,
deve sempre ter cheiro de rosa,
fitas no cabelo,
sorrisos e covas.

Para ser mulher,
cante uma canção de amor,
acredite e domine o destino
seja pra onde ele for.

Para ser mulher,
basta se conhecer plena,
ser dura e não se entregar
à qualquer coisa pequena.

Para ser mulher,
acolha o mundo em seu ventre.
Não há nesse mundo outro ser
que saiba o que sente.

Mulher,
palavra misteriosa.
Melodia em forma de corpo.
Alma em forma de prosa.

Kadydja Albuquerque (Março / 2010)

Tuesday, December 15, 2009

Imagens e poemas



Existem algumas imagens que eu não capto sozinhas. Elas vêm com palavras. E essa é uma delas.


Isso de buscar desenho em nuvens,
É passatempo pro tempo que nem passa.
Essa sina de horizonte em todo azul,
É querer freio pra chuva que não cessa.
O pôr do sol apresenta mais de um caminho
De cores, de ventos, de horizontes.
Desalinho?

Lá de longe, tudo belo, plástico
tudo orgânico, perecível, aqui embaixo.
Mais um tempo, mais um pôr,
Mais um porém.
E lá no alto... vai o céu ou o certo,
nada concreto, nada asfalto.

Kadydja Albuquerque > 14/12/2009

Sunday, October 18, 2009

Espelho de sonhos

No alto, a estrela distante
brilha com todos os meus sonhos
porque já transbordam de mim.
Reluz como sempre são os meus sonhos,
espelho em rostos distintos,
e uso as mesmas fúteis palavras
para o que nem sei se sinto.

Se não sei sentir, por que tentar?
Se vivo a tentar, por que insisto?
Confundo um sonho, um rosto,
e esse alto e distante coração,
amarelo como a estrela
ou como em um poema de Neruda,
sangra reticente e tolo.

Antes, não houvesse céu e estrelas.
Antes, estivesse morto.

Kadydja Albuquerque

Sunday, October 4, 2009

ELA



Quando ela acredita,
as nuvens se dissipam
negras,
tal um grão de areia
açoitado pelo vento.

Quando ela grita,
os passarinhos calam
livres,
tal o tamanho da fé
tal o peso do lamento.

Quando ela sorri,
as flores desabrocham
coloridas,
tal é a sua leveza
de viver todo momento.

Quando ela acredita,
ela grita,
e depois sorri.
Primeiro a fé,
depois o lamento.
Lá, dentro,
sempre reside a leveza
aos olhos atentos.

Kadydja Albuquerque (04.10.2009)

Foto: Central Park - NYC (agosto 2009)

Sunday, September 20, 2009

Sky falls



Sábado à noite em casa + TPM + Retorno de Saturno dá nisso.

Sky Falls

A noite acontece em mim.
Só ela, nua e crua
com suas estrelas.
Oh noite, não te quero.
Quero o dia e sua sinfonia.
Quero o dia até com meia dúzia de nuvens.
Suporto todas as nuvens,
se claro for o azul do céu.
O que já não sustento
é essa escuridação, negra noite.
É esse desalento.

Sky falls
and my eyes, dark balls.

Kadydja Albuquerque

Faz sentido? Nem eu entendo. Acho que ando em uma fase de composição confusa, mas eu deixo fluir. Nenhum sentido vence coisa alguma.

Foto: Fernanda Valeriano.

Saturday, August 8, 2009

Mimo do tempo

Como é tolo o coração de uma mulher.
Ingênuo e pleno de fantasias banais,
Afogado em memórias nunca existidas
Das mais perfeitas investidas
Do menos perfeito rapaz.

O coração de uma mulher só não é mais bobo
Que seus gestos ansiosos
Que seus olhares pagãos
Que sua boca seca e escancarada
Diante do paliativo da solidão.

Afinal, de que adiantaria ser lúcida
Se toda graça da mais boba mulher
está em acreditar
que o mais excitante futuro
não é taquicárdico, é seguro?
E que isso tudo é apenas um mimo
... do tempo.

Kadydja Albuquerque



Poesia não se explica. Nem se decifra. Sente-se. O que eu escrevo é exercício de pacificação. Tentativa “bonitinha” de organizar em palavras a confusão de tantos sentimentos. Amo, odeio, desejo, repudio, choro, rio, brinco, travo, construo castelos suntuosos, e me escondo em cabanas de palha.

Não tenho conserto. Vou ser assim pra sempre. E porque eu quero, porque preciso desse frio na barriga, desse olhar catatônico que às vezes me pego fazendo na janela. Janela física, com rede, que dá pra um céu que sempre me acalma. As minhas janelas abstratas também acabam em um céu imaginário. Nele, é sempre dia. É sempre verão.

O que há no céu que tanto me fascina¿ Deve ser a imensidão. O azul. O céu como a pintura mais fiel do infinito, como o mimo do tempo tentando controlar a minha ânsia de amanhãs . Olhar para o céu e ver movimento. Perceber o redondo ciclo da vida, das estações do ano, e sentir que minha alma acompanha, integra esse universo, alterna calor, alegria, tristeza, solidão, esperança, desalento.

O que há no céu, há em mim. Há em qualquer um.

Wednesday, June 24, 2009

Há.

Não há dor, só imensidão. Não há choro, mas lágrima velada. Não há túnel, há uma luz vacilante. Há céu, nuvem, calor. Sim, há muito calor. Há pressa, mas não há apelo. Há quase uma certeza, quase aquela coisa de sorte. Há uma coruja que sobrevoa. Ainda agora houve uma brisa. E um pouco de fé também sempre há. Se há cuidado, há mais carinho. Há pegadas, há caminho. Sim, há um belo caminho. Há lida, vida, recolhida. Não haverá partida. Há tanta chegada, há frio na barriga, e haja força. Haja força. Haja força. Há corpo, mas há limite. Há olhar, convite. Há história, geografia, matemática, português. Há vez. Há uma grandiosa vez. Há destino, crença, desatino, esconderijo. Há canção. Há um milhão de canções. Há tantas canções quanto pensamentos. Não há lamento. Não, não há recuo. Há coisas caladas, silêncio. Há sorrisos. E haverá gargalhadas. Houve choro, cara fechada. Há sabedoria agora. Uma sapiência miúda, rastejante, a conta gotas. Há novela na TV, e uma revista densa. Há tempo pra pensar, mas há mais ainda a vontade de dormir. Há saudade. Sim, haja saudade. Sempre haverá a saudade. Há você, eu, os outros. Há meus pais. Há o Chico Buarque e seu talento. Há aquela maldita canção de Chico. Há uma vela acesa e meus santos empoeirados. Há um São Francisco sem a pomba em seus braços. Há Iemanjá. Azul, em minha parede. Azul também há em um terço. Há um troço aqui dentro quando não velo reza. Houve vômito. Só não houve ainda o vômito final. Há ainda muita coisa aqui dentro. Há vida aqui dentro. Há batida. Há calor. E haja força, haja força. Há um bonsai morto em minha sala. Há preguiça, miado de gato. Há livros, tantos livros. Há solidão, mas não há dor. Só imensidão.

Kadydja Albuquerque

Monday, June 22, 2009

Inevitável



Há sempre uma borboleta em todo jardim.
Ainda que não seja a mais bonita,
ou aquela que voe com mais elegância...
Há sempre uma borboleta em todo jardim.

Há inevitavelmente azul em todo céu.
Mesmo escuro pela presença das nuvens,
ou pela ausência do sol
Há inevitavelmente azul em todo céu.

Há no destino de todo pé um chinelo.
Mesmo roto ou novo,
de couro ou amarelo.
Há no destino de todo pé um chinelo.

E em todo voo, céu ou caminho
nuvens, chinelos, bichinhos
Em todas as coisas desse mundo,
reais ou abstratas,
Há o que não se farta: o amor.

Kadydja Albuquerque > 24.05.2009 (Versos publicados na exposição "Um a Um" de Melissa Warwick)
Foto by me: Namorados no Jardim Japonês / Buenos Aires (maio 2008).

Monday, June 15, 2009

Quem sou eu 2

sou contradição
mas me reconheço
em nada e em tudo
nos dias de morte e de vida.
sou canção parida
para um filme mudo
com tantos gritos
quanto sorrisos.
sou lágrimas, alegrias
carências, tanta poesia.
sou fé e segurança
dia, noite,
uma ingrata mudança.
estou descoberta, alerta
sinto raiva, amor, fome.
sou amor
sou fome
sou difícil
como o meu nome.
sou torta,
como essa porta
essa estúpida porta
tão estúpida, idiota.
ah, como quero ser janela
ou pelo menos uma cortina
vilã, livre, famosa, cretina.
qualquer coisa eu sou
eu não ligo pra mais nada
vivo, assim, cansada
excitada, aliviada
por ser quem eu quiser.

Kadydja Albuquerque > 14.06.2009

Sunday, June 14, 2009

Quero bem

Quero o bem,
o infinito
Quero o não dito
todas as frases
as canções que
passam pelas fases
do que somos
somado a tudo que nao foi.

Quero o riso
a pele, o gosto
Não quero esse desgosto
sua ausência, encosto
Quero o olhar
não consigo mirar
os olhos que não me procuram
não esbarram nos meus
no meio de tantos outros.

Quero a soma
do que foi anunciado
e nunca, nunca mais
vai chegar.
Quero um espaço
em seus pensamentos
sem aceitar que acabou.
Quero ir pro espaço
aqui tudo está tão só
chuva em meus olhos
porque te quero bem.

E querer bem
não devia fazer mal.
cadê todos os santos
orações, quebrantos
versos pobres,
doces cantos,
Cadê o que não findou
mas se perdeu,
e ninguém acha,
o que seria nós
o que não se encaixa
o que adormecido ficou.

Kadydja Albuquerque > resgatando poesias na minha gaveta de papeis.

Monday, May 18, 2009

Dia de chuva



Foto: Soneca e Nina, meus amores.

A chuva batendo na janela
lava tudo, quase em tudo
não se vê mais nada
nem um pingo de sentido,
de sentinela.

A gripe que amolece meu corpo
traz a força que revela
o que já se faz em tudo
e do nada vem a sensação
do vivo que estava quase,
quase morto.

A música que percorre minha cama
abraça os sonhos que sem sono
caminham pro futuro
onde o trono, a recompensa
do que se espera, na verdade
é o que se chama.

O que se chama é amor,
sentido em tudo, em cada gesto,
olhar ou ainda pensamento.
Amem ou calem. Sem amor,
tantas e outras coisas
de nada valem.

Kadydja Albuquerque > 18.05.2009

Uma semana intensa para todos, como a minha gripe. ;-)

Tuesday, May 12, 2009

Blame it

uma mulher de saudades
me esgoto, desgosto,
re-componho, ré, me exponho
sal de lágrimas, sonhos
mulher, o que fazes?!!

blame it on você
blame it on qualquer
blame ou blasfeme
bla bla bla, mulher
blame it, metida.

encosto, aposto
desgosto, esgoto
carinho, caminho
arrepio de pelo, friozinho
na barriga, na mente

mente? So...

blame it on ou não
blame it on coração
blame ou blasfeme
bla bla bla, quem é?
it's me
ou quem quiser.

Kadydja Albuquerque > 08/05/2009

Wednesday, April 1, 2009

Discurso em um casulo


Por que eu não esqueço?
Quando parei de acreditar
que estava no caminho certo?
Em que parte do caminhar
houve o tropeço?
Entre a mente e o coração,
qual o mais esperto?
Entre o que mente e o que
vive vão, qual eu mais detesto?
Pra seguir, só há um seguimento:
Andar e sorrir até que
passe o resto.

Kadydja Albuquerque > 01.04.2009 (sem mentiras...)
Foto: Prainha / RJ

Sunday, March 29, 2009

Sou

sou braços abertos.
sou partida.
sou olhos despertos.
sou partida.

sou calma anunciada.
sou retirada.
sou encanto
entretanto,
sou retirada.

sou partida.
estou inteira.
sou retirada.
e, a minha maneira,
serei chegada.

Kadydja Albuquerque > 29.03.2009