Friday, February 27, 2009

While my eyes



Adoro! Cibelle & Devendra Banhart - London, London.
Álbum: The Shine Of Dried Electric Leaves.

Mais um domingo

[Lendo Shakespeare e ouvindo bossa nova, a surtação sempre vem...]

A forma como o tempo propõe a resolução das coisas me dá preguiça. Bocejo. Raiva também me dá por essa vida arrastada a cada minuto, ansiosa, medíocre. O pior é quando temos consciência de que o tempo se move lento, dolorosamente sábio, e ainda assim acreditamos que o melhor é esperar. O que é o melhor¿ Eu não posso e nem quero esperar. Até posso, mas não deveria. Amanhã posso estar morta, um pedaço de carne e osso com os sonhos guardados para uma nova vida. E então, o tempo renova-se, retrocede-me aos primeiros choros,e apaga todos os outros que me fizeram o que sou.

E o meu eu-posterior-a-mim já pode não ter interesse pelas mesmas coisas, sonhar os mesmos sonhos, cantar as mesmas músicas. Não, não é que não pode, ele não vai mesmo. O meu eu-posterior pode nascer em um país muito pobre na África e não levar poesia porque já não lhe importam as palavras quando o estômago ronca e as pernas afinam. Posso ainda nascer na Suécia e me calar diante de um samba porque o significado já não existe sem um dicionário. Odeio dicionários. Ou as palavras encaixam em mim ou não.

Posso ainda nascer bicho, e talvez seja essa a melhor opção. Saciar minhas necessidades com o instinto, sem samba ou palavras. Ser como os meus felinos, felizes, alimentados, amados pela parte menos egoísta do meu coração. Esquecer vaidades, menosprezar posses, ignorar conhecimento. Viver apenas o dia de hoje do mesmo jeito que eu vivi ontem, e não projetar um futuro.

Mas enquanto não nasço africana, sueca ou bicho, fico com as minhas inquietações, minhas palavras, meus choros, minha fome, minhas vaidades, posses, dicionários, meu passado, meu presente, meu futuro. Resigno-me ao tempo, senhor de todos nós, pois já não adianta lutar. E ainda que adiantasse, tenho preguiça. E assim, espero mais um domingo.

“O resto é silêncio” (William Shakespeare).

[Foto: eu não sei quando e não sei onde. Fotógrafo: meu papi - preciso dar o crédito antes que ele cobre! :-P]

Postado em 21/09/2008

Novo... ou de volta?

Esse blog já existia, mas como eu tinha criado ele com outra proposta, resolvi manter as minhas atualizações no Simples Mortais Escrotos. Enfim, estou voltando para ele porque aqui posso personalizar e o UOL não me dá isso lá.

Estou tendo um trabalhão para migrar tudo, e por isso não migrarei todos os posts. O meu velho e limitado blog continuará lá, e aos poucos este aqui vai tomando corpo. Por enquanto, acho que vou dar uma parada de colocar novos posts porque senão vai confundir essa minha cabecinha aqui. Vamos ver se até o final da semana consigo migrar tudo.

Noite




Não quero mais viver as coisas tristes. Meu corpo já não esboça qualquer reação. Dormente. Meus olhos perfuram as imagens. Lânguidos. Por que tenho eu de sentir culpa? Quero apenas ouvir o violino que toca em meu computador e o vento que entra pela janela.

Por que o tempo não passa¿ Ah, ele passa. Passa.

Não quero mais ser o que eu estava sendo. O ato de representar cansa. E o fato de eu me cansar já não é mais acolhedor. Quero o que eu tive ontem. O passado de 24 horas, o dia de gargalhadas e surpresas. Se o tempo passar do meu lado, terei hoje e amanhã.

Quero viver de poesia, de comunicação, de tarô. Meus, dos outros, nossos. Eu fecho os olhos e o mundo é mais belo dentro de mim. Há um silêncio, paz esfomeada - uma luz azul.

Talvez azul escuro, porque eu me sinto noite... vivendo sob o feitiço de Áquila. Carrego apenas a dimensão das possibilidades. Os sonhos. Mas junto com os sonhos, vem a saudade. A saudade do que ainda não vivi.



“O mais triste de um passarinho engaiolado
é que ele se sente bem”. (Mário Quintana)



Kadydja Albuquerque > 17/09/2008

De Deus



Não pode ser de Deus tudo isso. Todo esse choro, esse desgaste, essa falta de ouvido. Não pode ser de Deus deixar de sentir amor por alguém. Fazer alguém sofrer. Deve ser das trevas se sentir menor. Eu já não sei mais o que sentir. Este dia amanheceu escuro, frio, e sombrio. Deus deve ter me abandonado para que as trevas se encarregassem de me levar ao fundo.

Mas eu sei que Ele fez isso por amor a mim. Para me mostrar que sofrer é inevitável quando se quer recomeçar. O meu choro é de renascimento, da ardência que o ar provoca ao entrar pela primeira vez nos pulmões. E hoje foi o meu último suspiro do passado, e meu primeiro respiro para o futuro.

É de Deus o dia de amanhã. É do sagrado a poesia, a música, os amigos, a vida. É de mim aceitar que eu preciso passar por isso. É de Cecília me consolar:

“Que procuras¿ - Tudo. Que desejas¿ - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo meu rumo na minha mão”.
Cecília Meireles – Despedida.

P.S - até minhas interrogações estão ao avesso.