Estou há dez dias de ingressar de cabeça, tronco e membros em meus 30 anos. E isso tem me feito dialogar comigo mesma como uma espécie de ritualidade obrigatória a uma mulher que carregará o rótulo de balzaquiana. Um rito que fará toda diferença quando chegar o momento. Assumirei eu o rótulo com o mesmo terror das mulheres que carregavam a letra Escarlate, ou farei desses novos anos a mais rica experiência da minha vida? Nem Freud, tampouco Balzac, podem me apontar um caminho. Até porque eu já o sei.
Tenho pensado muito sobre o silêncio como um caminho para a transformação. Não o silêncio que exclui, mas aquele que acolhe. O silêncio da voz que evita palavras ingratas. O descanso do ouvido que não permite menos do que oferece. A lealdade do coração que ama mais a si mesmo.
Calar como uma forma de autoconhecimento. Vedar olhos e ouvidos para referências externas que só provocam ruídos em sua essência. Ouvir aquilo que valha. Dizer apenas o que encontra ressonância. Sentir o que não há pretensão de ser falso. Ser imperativo em sua vontade de não mais ser pautada pelo que pensam de você, pelo que querem de você, mas pelo que você pensa e quer de si mesma.
Toda mudança é imperativa porque só surge diante dos reveses. E toda mudança passa pela pausa. E toda pausa só é legítima quando anda de mãos dadas com o silêncio. Toda pessoa muda. Toda muda, cala.
Ao calar, o ato de mudar continua imperativo, mas o caminho é, sobretudo, reflexivo. Se as pessoas bem soubessem, calariam diante do medo de expressar. O equívoco é amigo do medo. E este é ardiloso diante da ação. Despe de pureza qualquer ato que se pretenda sublime em sua essência, em seu querer. E o torna vulgar, mesmo que os olhos digam outra coisa, que o coração grite imperativo, acenando com seu cardápio de sonhos: Mude. Faça diferente. Seja você.
E o que é ser você? Não há listas de virtudes e defeitos que definam um ser humano. Somos obra de uma bagagem que nunca será despachada. Somos uma construção troncha e bela de um passado que nos marca, de um presente que ainda incomoda, e de um futuro com o qual flertamos impotentes. Julgamos saber quem somos porque evitamos aceitar que a vida dobra esquinas e nos surpreende sempre com os acasos à espreita. Somos também soma dos acasos que nos sabotam e nos fazem correr pro espelho para questionar mais uma vez: quem é você mesmo?
Não há chegada no caminho do autoconhecimento. Há uma estrada que transforma esse eterno conhecer mais belo. Uma estrada de silêncio e grito. De coisas que precisam ser ditas e de outras tantas que devem ser transformadas em pausas sonoras. Ouvi uma frase que me remeteu a este caminhar solitário: “Em uma canção, as pausas são tão importantes quanto os sons. Ainda na pausa, a canção continua”.
E só há uma chance da canção da vida continuar sem lhe ser ingrata: quando você caminha consigo mesma. E isso não significa isolamento. Não nos valemos ao construir bolhas. Caminhar consigo mesmo é viver fiel ao que diariamente te define, te molda, te certifica. É saber que de círculos não nascem quadrados, e que por isso nem toda oferta deve estremecer a sua procura.
Esse é um texto que fala sobre silêncio, caminhos, pausas, ofertas e autoconhecimento. É confuso como o pensamento humano. É hipertextual como os caminhos que nos ligam a nós mesmos. É virtual porque é passível de concretização. É líquido como os sentimentos que nos fogem pelas mãos da inviabilidade, e nos fazem sempre avançar ou recuar. Suas, minhas mãos, de qualquer um que se confronte. É uma forma de fazer entender que nada nessa vida é legítimo se não constar como cláusula em seu contrato pessoal. E que qualquer atitude sua se justifica apenas se for leal com o seu caminho, com o seu querer. Só assim.
Do contrário, é silêncio amordaçado, é descaminho disfarçado de pausa, é uma canção desafinada, é apenas mais uma forma covarde de desprezar a força de suas escolhas. E, por Deus, nunca coloque nas mãos dos outros a capacidade de escolher pelo seu caminho. É como entregar a sua vida a quem não sabe o que fazer com a sua própria. É se permitir secundário. É o único abandono insuportável.
É o que eu me permiti aprender nesses 30 anos.
Sunday, July 18, 2010
Thursday, June 3, 2010
Para minha mãe
Uma declaração de amor se faz de diversas formas. Da forma mais direta, olho no olho, a voz expressa o que o coração pulsa. Existem declarações através dos gestos mais sutis, como segurar a mão de quem confronta o medo. Declara-se amor também na repulsa, no silêncio, na distância. Como eu declaro agora, porque não há como entregar o olhar, ou a mão, ou o medo.
Entrego a saudade, que de tão companheira, virou parente e utiliza o nosso sobrenome. Há 30 anos, eu venci o meu primeiro desafio e vim ao mundo pelo ventre dessa mulher. Ou seria dessa menina, que aos 20, escolheu o mais árduo dos ofícios: ser mãe e esposa. E que, como todas nós, constrói a sua vida com as escolhas que faz. Minha mãe. Uma mulher tão mulher, que me provoca frustração ao me confrontar no espelho.

Minha mãe, com quem ouvi pela primeira vez Gilberto Gil, ainda no ventre. E que anos depois, ainda lembrava das canções. O verdadeiro amor é vão, e estende-se infinito... Só o amor de uma mãe é vão, é infinito, é eterno. Às vezes, nos percebemos buscando outro tipo de amor, porque o ser humano é, por natureza, caçador do que lhe falta, e esquecedor do que já possui. Mas quando essa busca cai no vazio, é o amor incondicional, aquele que enfrenta qualquer distância, e que te aceita de qualquer forma, que mantém o sentido de estar aqui nesta vida.
E devo isso a minha mãe. Uma mulher para quem pouco expressei meus sentimentos, mas que nunca deixou de enxergar o meu coração. O coração de uma mãe pulsa na mesma sintonia que o da sua cria. Não precisa falar, não carece escrever.
A maior prova de amor que a minha mãe já me deu foi me aceitar como eu sou. “Tudo que eu quero é que você seja feliz”. Sou bicho criado fora das convenções. Sou projeto de filha que não respeita as fases. Sou uma mulher que não seguiu os mesmos caminhos, mas os seus caminhos me moldaram. Sou concha ao invés de pérola. Sou ela ao avesso. E neste, nos realizamos.
Já não conseguiria viver com minha mãe porque já me moldei sozinha. Entretanto, é a certeza desse amor e da sua presença ainda neste mundo que me sustenta tantas vezes. O amor de mãe vem antes da primeira vista. Ama-se o que ainda não conhece. Ama-se aquilo que um dia pode te causar a maior dor. Ama-se o que mais tarde, fatalmente, você vai deixar partir. Ama-se pela simples existência, sem a mínima exigência de troca.
Sou filha, e talvez nunca venha a ser mãe, se esse for o meu destino. Mas do lado de cá, também existe a incondicionalidade. Amo a minha mãe desde que a vi, antes de a conhecer. Amo -a por nunca ter me causado dor. Sei que um dia, mãe, haverá partida, mas te amo simplesmente por existir.
Hoje é o seu dia. Curta muito os 50 anos e que Deus te ilumine sempre, como sempre fez. Linda mulher.
Feliz aniversário, “Joselita”.
Kadydja
Sunday, May 30, 2010
Silêncio
O silêncio também é grito. É a voz da redenção. A cor cinza que torna os olhos opacos, cegos na crença. Silêncio é sintoma do olhar que já não tolera o que está a sua volta. Não é fuga, é uma forma de encarar o tempo sem contestá-lo.
Silêncio é protesto. É a última tentativa de enxergar por fora o que te assombra, inquieta, dói. É contravenção em uma época onde se fala demais. Uma época em que viver a vida do outro dá mais tesão do que viver a sua.
Silêncio é desdém para o alheio e seu poder barato. É sabedoria de impor limites. É uma forma de criar barreiras para a ignorância. É a melodia do perdão para as almas. É caminho para encontrar a si mesmo, e preservar seus valores.
Silêncio é sonho. É a comunicação mais sublime. É a mão abstrata que pede ajuda, mas que ao mesmo tempo barra o que te faz infeliz. É um despertador de problemas. É um mergulho à procura de soluções. É retirada pra trilhar um novo percurso, mais confiante, menos vulnerável.
Silêncio é resposta.
Silêncio é protesto. É a última tentativa de enxergar por fora o que te assombra, inquieta, dói. É contravenção em uma época onde se fala demais. Uma época em que viver a vida do outro dá mais tesão do que viver a sua.
Silêncio é desdém para o alheio e seu poder barato. É sabedoria de impor limites. É uma forma de criar barreiras para a ignorância. É a melodia do perdão para as almas. É caminho para encontrar a si mesmo, e preservar seus valores.
Silêncio é sonho. É a comunicação mais sublime. É a mão abstrata que pede ajuda, mas que ao mesmo tempo barra o que te faz infeliz. É um despertador de problemas. É um mergulho à procura de soluções. É retirada pra trilhar um novo percurso, mais confiante, menos vulnerável.
Silêncio é resposta.
Monday, May 24, 2010
Caminho de volta

O caminho de volta é parte das voltas
que o mundo dá.
O ruído da porta é aconchego da rota
quando se quer chegar.
O instante do encontro é a virada do ponto
quando se precisa seguir.
O timbre da voz é o presente do algoz
quando se limita a ouvir.
Kadydja Albuquerque (25.05.2010)
Sunday, May 9, 2010
A menina e a boneca

A menina tinha uma boneca
e seu nome lhe fazia rir.
A boneca tinha uma menina
e lhe ensinou a fingir.
Fingia colo,
fingia medo.
Fingia amor,
Fingia segredos.
A menina criava mundo
para sua amiga de pano,
que em silêncio profundo,
alimentava o coração humano.
A boneca tinha uma canção,
que a menina lhe escreveu.
Um universo, um refrão,
que um dia pereceu.
Virou moça, virou ano.
A boneca foi pra estante.
Com ela, foram-se os panos
daquele universo infante.
A menina foi pra vida,
que não lhe fazia sorrir.
Criou mundo, e outras canções,
que alguns não souberam ouvir.
Virou mulher, virou ano.
O sonho já não morava ali.
Em seu coração criou pano
e reaprendeu a fingir.
Texto e Foto: Kadydja Albuquerque
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