Thursday, June 3, 2010

Para minha mãe




Uma declaração de amor se faz de diversas formas. Da forma mais direta, olho no olho, a voz expressa o que o coração pulsa. Existem declarações através dos gestos mais sutis, como segurar a mão de quem confronta o medo. Declara-se amor também na repulsa, no silêncio, na distância. Como eu declaro agora, porque não há como entregar o olhar, ou a mão, ou o medo.

Entrego a saudade, que de tão companheira, virou parente e utiliza o nosso sobrenome. Há 30 anos, eu venci o meu primeiro desafio e vim ao mundo pelo ventre dessa mulher. Ou seria dessa menina, que aos 20, escolheu o mais árduo dos ofícios: ser mãe e esposa. E que, como todas nós, constrói a sua vida com as escolhas que faz. Minha mãe. Uma mulher tão mulher, que me provoca frustração ao me confrontar no espelho.



Minha mãe, com quem ouvi pela primeira vez Gilberto Gil, ainda no ventre. E que anos depois, ainda lembrava das canções. O verdadeiro amor é vão, e estende-se infinito... Só o amor de uma mãe é vão, é infinito, é eterno. Às vezes, nos percebemos buscando outro tipo de amor, porque o ser humano é, por natureza, caçador do que lhe falta, e esquecedor do que já possui. Mas quando essa busca cai no vazio, é o amor incondicional, aquele que enfrenta qualquer distância, e que te aceita de qualquer forma, que mantém o sentido de estar aqui nesta vida.

E devo isso a minha mãe. Uma mulher para quem pouco expressei meus sentimentos, mas que nunca deixou de enxergar o meu coração. O coração de uma mãe pulsa na mesma sintonia que o da sua cria. Não precisa falar, não carece escrever.



A maior prova de amor que a minha mãe já me deu foi me aceitar como eu sou. “Tudo que eu quero é que você seja feliz”. Sou bicho criado fora das convenções. Sou projeto de filha que não respeita as fases. Sou uma mulher que não seguiu os mesmos caminhos, mas os seus caminhos me moldaram. Sou concha ao invés de pérola. Sou ela ao avesso. E neste, nos realizamos.

Já não conseguiria viver com minha mãe porque já me moldei sozinha. Entretanto, é a certeza desse amor e da sua presença ainda neste mundo que me sustenta tantas vezes. O amor de mãe vem antes da primeira vista. Ama-se o que ainda não conhece. Ama-se aquilo que um dia pode te causar a maior dor. Ama-se o que mais tarde, fatalmente, você vai deixar partir. Ama-se pela simples existência, sem a mínima exigência de troca.

Sou filha, e talvez nunca venha a ser mãe, se esse for o meu destino. Mas do lado de cá, também existe a incondicionalidade. Amo a minha mãe desde que a vi, antes de a conhecer. Amo -a por nunca ter me causado dor. Sei que um dia, mãe, haverá partida, mas te amo simplesmente por existir.



Hoje é o seu dia. Curta muito os 50 anos e que Deus te ilumine sempre, como sempre fez. Linda mulher.

Feliz aniversário, “Joselita”.

Kadydja

Sunday, May 30, 2010

Silêncio

O silêncio também é grito. É a voz da redenção. A cor cinza que torna os olhos opacos, cegos na crença. Silêncio é sintoma do olhar que já não tolera o que está a sua volta. Não é fuga, é uma forma de encarar o tempo sem contestá-lo.

Silêncio é protesto. É a última tentativa de enxergar por fora o que te assombra, inquieta, dói. É contravenção em uma época onde se fala demais. Uma época em que viver a vida do outro dá mais tesão do que viver a sua.

Silêncio é desdém para o alheio e seu poder barato. É sabedoria de impor limites. É uma forma de criar barreiras para a ignorância. É a melodia do perdão para as almas. É caminho para encontrar a si mesmo, e preservar seus valores.

Silêncio é sonho. É a comunicação mais sublime. É a mão abstrata que pede ajuda, mas que ao mesmo tempo barra o que te faz infeliz. É um despertador de problemas. É um mergulho à procura de soluções. É retirada pra trilhar um novo percurso, mais confiante, menos vulnerável.

Silêncio é resposta.

Monday, May 24, 2010

Caminho de volta



O caminho de volta é parte das voltas
que o mundo dá.
O ruído da porta é aconchego da rota
quando se quer chegar.
O instante do encontro é a virada do ponto
quando se precisa seguir.
O timbre da voz é o presente do algoz
quando se limita a ouvir.

Kadydja Albuquerque (25.05.2010)

Sunday, May 9, 2010

A menina e a boneca



A menina tinha uma boneca
e seu nome lhe fazia rir.
A boneca tinha uma menina
e lhe ensinou a fingir.

Fingia colo,
fingia medo.
Fingia amor,
Fingia segredos.

A menina criava mundo
para sua amiga de pano,
que em silêncio profundo,
alimentava o coração humano.

A boneca tinha uma canção,
que a menina lhe escreveu.
Um universo, um refrão,
que um dia pereceu.

Virou moça, virou ano.
A boneca foi pra estante.
Com ela, foram-se os panos
daquele universo infante.

A menina foi pra vida,
que não lhe fazia sorrir.
Criou mundo, e outras canções,
que alguns não souberam ouvir.

Virou mulher, virou ano.
O sonho já não morava ali.
Em seu coração criou pano
e reaprendeu a fingir.

Texto e Foto: Kadydja Albuquerque

Sunday, March 21, 2010

Aos Domingos



Eu nunca consegui ser completamente feliz aos domingos.

Domingo é um dia com cara de ultimato. Em mim, nunca soou como o primeiro dia da semana. Nunca teve aquela sensação de recomeço. Nunca me fez sentir cheiro de flores ou achar que a vida vale a pena. O domingo sempre me acorda, de conchinha, provocando solidão como um namorado que já não se ama.

Domingo é invariavelmente espelho mesmo que eu não saia da minha cama para encarar o banheiro. Domingo nunca é o dia em que eu recebo boas notícias. Você nunca chegará em um domingo carregando flores, chocolates e a tão esperada promessa de dias melhores.

Tenho fobia a noites de domingo. Existe um nome científico para isso? As noites de domingo debocham dos solitários ou daqueles que amam o passado, como eu. Não há misericórdia no pôr-do-sol de um domingo. Não há compaixão dos casais que saem à rua para aproveitar o dia. Não há sol que aqueça o coração ou comédia no cinema que conforte o que insiste em ser triste.

Minhas melhores poesias nasceram aos domingos. Porque nascem do nada ou do tudo que gangrena esse vazio. Não sei de nada, mas sinto tudo. E o confronto desenha palavras. Aos domingos, todas as minhas versões me convidam à reflexão. Sou múltipla e esquizofrênica. Não consigo ser escudo para combater o externo. Nem adiantaria. É o que apodrece silenciosamente aqui dentro que me incomoda.

Aos domingos não me expulso. Aos domingos não sinto saudade. Aos domingos me alimento apenas do que não existiu, e me engasgo com o anúncio da segunda-feira. Aos domingos, os meus gatos, e todos os gatos do mundo, são mais amáveis com seus donos porque podem sentir o peso das horas que se arrastam. Aos domingos, as janelas são templos de oração e espera.

Tudo o que se sente e não se deve sentir pisca em neon aos domingos. O coração cresce desordenadamente como uma metrópole poluída e barulhenta. É inútil ouvir canções em alto volume. Os ouvidos estão voltados para dentro.

Ainda que insuportável, o domingo é necessário. É quando nos deixamos abandonar. A bagunça do quarto e a sujeira da mente são permitidas. Somos mais humanos em dias de hoje. E como tudo na vida, ele sempre se despede, e passa.