Wednesday, March 17, 2010

The thrill is NOT gone


BB King e sua Lucille: "Eu tento opinar sobre as coisas do mundo, mas Lucille fala por mim".

Bem, eu estava planejando fazer mais uma resenha daquelas que sempre escrevo quando vou a um show bastante esperado e, claro, curtido. Acabei de chegar em minha casa, fiz o checklist dos gatos e das coisas que provavelmente eles destruiriam durante 8 dias de ausência. Está tudo em ordem, menos a minha cabeça para organizar ideias. Mas como ando evitando o “deixar pra depois”, vou tentar escrever alguma coisa sobre o que senti durante o show do BB King ontem (17), no Vivo Rio.

Primeiro, posso soltar um palavrão? Então vai lá: “táquepariu” que noite! Estive em Nova Iorque em agosto do ano passado e durante duas noites fui ao bar do BB King. Óbvio que nem sinal do cara por lá. O ambiente é mais um Hard Rock Café do Blues – uma grife pra você dizer que esteve e comprar imãs de geladeira ou palhetas de guitarra. As mesmas palhetas que ele distribuiu assim que adentrou ao palco.


Ele entra no palco e o público aplaude em pé.

O show começou apenas com a banda (e que banda!), que tocou duas músicas. Em seguida, o anúncio do rei da Guitarra. Ele entrou, lento, distribuindo palhetas e sorrisos para os felizardos das primeiras filas. Sentou, dois integrantes da banda o ajudaram a prender a guitarra ao corpo, e ele começou a conversar com a platéia – coisa que faria mais outras tantas vezes ao longo do show.

A cada solo de guitarra, ou quando ele decidia soltar o vozeirão, dois ou três gritavam “Wow!” e puxavam o coro de aplausos. Pra muita gente, como eu, era difícil acreditar que estávamos diante da lenda viva do Blues. Mais difícil ainda acreditar que ele, aos 84 anos, e muitos deles de incontestável reconhecimento musical, seria um adorável “velhinho”. BB King conversa mais com o seu público que puxadora de trio elétrico. Tudo bem que não estávamos vestindo abadás; as cervejas eram servidas à mesa; e o dono da festa não exibia suas pernas em um vestidinho curto e cheio de lantejolas.


Entre uma música e outra, uma boa prosa.

Mas durante pouco mais de uma hora, a lenda conversou bastante com os reles mortais. Elogiou o povo brasileiro. “Vocês são o povo mais amável que conheço”. Falou sobre o RAP americano e como os cantores do gênero cantam coisas ruins sobre as mulheres. Sim, sobre essas ele rasgou elogios também, e brincou: “eu nunca vi uma mulher feia na minha vida”. Ao notar uma loira que dançava despretensiosamente em sua cadeira, ele soltou: “Moça, tenho 84 anos, mas não estou morto. Vá com calma”. Com o sorriso sempre no rosto, BB King não parecia estar cansado, mas não levantou de sua cadeira real um só momento. Apenas no final, ajudado por um assistente e um músico da banda.


BB King se divertindo com o seu talento.

Lembrei do meu pai durante todo o show, principalmente nas horas de “The thrill is Gone” e “Key to the Highway”. A uma certa altura, ele provocou o público: "o que vocês querem ouvir?". Um fã novinho, que estava atrás da minha mesa embrulhado na bandeira de Minas Gerais, gritou insistentemente: "Guess Who!". E ele atendeu. Será que ele conseguiu dormir ontem? Fiquei ligeiramente preocupada depois que o rapaz agradeceu algumas vezes com “BB King, I Love you!”. Mas nós, meninas, tivemos nosso momento também. “You are my sunshine” foi a canção dedicada às mulheres e todas cantaram junto com ele. Além dessas, outras conhecidas como “Love comes to town” e “I need you so”.


Fim de show e só mais um pouco de atenção para os fãs brasileiros.

Ao final do show, ele vestiu seu casaco e um chapéu de palha, e conversou com alguns fãs. Não deu autógrafos, nem pro fã desesperado que havia levado a sua guitarra com a esperança de que teria qualquer rabisco do rei em seu instrumento. O momento de interação havia cessado. Estava bom demais. Durante todo o show conversamos e pedimos músicas; o ensinamos a contar até quatro em português; e quase transformamos o Vivo Rio em um bar típico de Memphis com seus “wows”, e estalos de dedos, e casais que levantavam da mesa para arriscar uma participação mais eufórica. Fomos amáveis como BB King esperava que fôssemos, e como ele não deixou de ser um minuto.

Dedico esse texto a quatro pessoas importantes para que eu vivesse esse momento: meu pai e minha mãe, Paula Lagrotta e Ronaldo Conde. Cada um com o seu gesto generoso e que eu espero retribuir um dia.

Fotos: Kadydja Albuquerque entre cabeças, garçons e aplausos.

Alguns vídeos:




Key to the Highway


Guess Who e Rock me baby

5 comments:

Nadja said...

Kady, Já falei uma vez e vou repetir : Quando vc descreve o show é só fechar os olhos e imaginar-lo, pois querida, é p e r f e i to!!!!
Eu fui ao show da Madona, do Coldplay e agora do B B King !!!!!Fantástico!!!
Bjoos.

Mari Hirsch said...

tá bom. tentar escrever alguma coisa?? vc arrasouno post! e inda por cima me matou de inveja... putz!
o negão é foda...

Kaká Barbosa said...

Fico imensamente feliz quando pessoas que tanto gosto conseguem realizar seus sonhos...lindo texto, nêga...deve ter sido uma emoção única!! E que venham mais e mais momentos como esses...xero!

Alfredo said...

Filha, eu estava lá com você e Victor!!!!

Beijão

O Paulino said...

Pow..... K...

Se inveja pagasse imposto... tava quebradíssimo.Mas que bom que você compartilhou essa momento... foi um mergulho nas notas sonoroas, suingadas e melancólicas de um grande mestre...

Salve salve BBKing... esse entra para série "Shows que eu queria muito ter ido"..junto com um de 1962 de Luiz Gonzaga e qualquer um de James Brown..