Não há dor, só imensidão. Não há choro, mas lágrima velada. Não há túnel, há uma luz vacilante. Há céu, nuvem, calor. Sim, há muito calor. Há pressa, mas não há apelo. Há quase uma certeza, quase aquela coisa de sorte. Há uma coruja que sobrevoa. Ainda agora houve uma brisa. E um pouco de fé também sempre há. Se há cuidado, há mais carinho. Há pegadas, há caminho. Sim, há um belo caminho. Há lida, vida, recolhida. Não haverá partida. Há tanta chegada, há frio na barriga, e haja força. Haja força. Haja força. Há corpo, mas há limite. Há olhar, convite. Há história, geografia, matemática, português. Há vez. Há uma grandiosa vez. Há destino, crença, desatino, esconderijo. Há canção. Há um milhão de canções. Há tantas canções quanto pensamentos. Não há lamento. Não, não há recuo. Há coisas caladas, silêncio. Há sorrisos. E haverá gargalhadas. Houve choro, cara fechada. Há sabedoria agora. Uma sapiência miúda, rastejante, a conta gotas. Há novela na TV, e uma revista densa. Há tempo pra pensar, mas há mais ainda a vontade de dormir. Há saudade. Sim, haja saudade. Sempre haverá a saudade. Há você, eu, os outros. Há meus pais. Há o Chico Buarque e seu talento. Há aquela maldita canção de Chico. Há uma vela acesa e meus santos empoeirados. Há um São Francisco sem a pomba em seus braços. Há Iemanjá. Azul, em minha parede. Azul também há em um terço. Há um troço aqui dentro quando não velo reza. Houve vômito. Só não houve ainda o vômito final. Há ainda muita coisa aqui dentro. Há vida aqui dentro. Há batida. Há calor. E haja força, haja força. Há um bonsai morto em minha sala. Há preguiça, miado de gato. Há livros, tantos livros. Há solidão, mas não há dor. Só imensidão.
Kadydja Albuquerque
Wednesday, June 24, 2009
Há.
Monday, June 22, 2009
Desencanto
Manuel Bandeira
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
Inevitável

Há sempre uma borboleta em todo jardim.
Ainda que não seja a mais bonita,
ou aquela que voe com mais elegância...
Há sempre uma borboleta em todo jardim.
Há inevitavelmente azul em todo céu.
Mesmo escuro pela presença das nuvens,
ou pela ausência do sol
Há inevitavelmente azul em todo céu.
Há no destino de todo pé um chinelo.
Mesmo roto ou novo,
de couro ou amarelo.
Há no destino de todo pé um chinelo.
E em todo voo, céu ou caminho
nuvens, chinelos, bichinhos
Em todas as coisas desse mundo,
reais ou abstratas,
Há o que não se farta: o amor.
Kadydja Albuquerque > 24.05.2009 (Versos publicados na exposição "Um a Um" de Melissa Warwick)
Foto by me: Namorados no Jardim Japonês / Buenos Aires (maio 2008).
Diquinha - Charlie Parker
Hoje eu voltei a ouvir minha pequena coleção de Clássicos do Jazz. E escolhi ouvir Charlie Parker, o Bird. Charlie foi um incrível saxofonista que junto com outros caras "fracos" como Miles Davis, Dizzy Gillepsie e Thelonious Monk lançaram ao mundo o Bepop, jazz moderno e cheio de improvisações. Não gente, eu não joguei no Google... eu gosto de ler mesmo sobre os músicos que me tocam. :-P
Enfim, ando sem muita coragem pra escrever. A vontade vem, mas não chega forte o suficiente para combater meu sono. Ainda mais quando eu coloco Bird pra tocar. Aí eu só quero ficar de olhos fechados e esperar que a noite me embale com bons sonhos. Sim, porque depois de um dia cheio como hoje, eu mereço bons sonhos no mínimo. E se eu puder escolher, quero sonhar com um lugar ensolarado, mas que não tenha tanto calor. Pode ser uma praia, e nesse praia, eu terei 10cm a mais, cabelo um pouco mais liso, um corpo bronzeado e um sorriso enorme. Eu vou encontrar só pessoas legais que vão me chamar pra seguir sorrindo pela vida e acreditando que ela não é tão traiçoeira e mesquinha assim como tenta me convencer a lida. No meu sonho o mundo vai girar mais rápido e eu vou acordar com aquela sensação de que tudo passa, tudo se renova, tudo acontece e que o importante é continuar andando em frente.
Bons sonhos também.
Monday, June 15, 2009
Quem sou eu 2
sou contradição
mas me reconheço
em nada e em tudo
nos dias de morte e de vida.
sou canção parida
para um filme mudo
com tantos gritos
quanto sorrisos.
sou lágrimas, alegrias
carências, tanta poesia.
sou fé e segurança
dia, noite,
uma ingrata mudança.
estou descoberta, alerta
sinto raiva, amor, fome.
sou amor
sou fome
sou difícil
como o meu nome.
sou torta,
como essa porta
essa estúpida porta
tão estúpida, idiota.
ah, como quero ser janela
ou pelo menos uma cortina
vilã, livre, famosa, cretina.
qualquer coisa eu sou
eu não ligo pra mais nada
vivo, assim, cansada
excitada, aliviada
por ser quem eu quiser.
Kadydja Albuquerque > 14.06.2009
mas me reconheço
em nada e em tudo
nos dias de morte e de vida.
sou canção parida
para um filme mudo
com tantos gritos
quanto sorrisos.
sou lágrimas, alegrias
carências, tanta poesia.
sou fé e segurança
dia, noite,
uma ingrata mudança.
estou descoberta, alerta
sinto raiva, amor, fome.
sou amor
sou fome
sou difícil
como o meu nome.
sou torta,
como essa porta
essa estúpida porta
tão estúpida, idiota.
ah, como quero ser janela
ou pelo menos uma cortina
vilã, livre, famosa, cretina.
qualquer coisa eu sou
eu não ligo pra mais nada
vivo, assim, cansada
excitada, aliviada
por ser quem eu quiser.
Kadydja Albuquerque > 14.06.2009
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