Monday, March 8, 2010

Às vezes / Começo a conhecer-me. Não existo.

Álvaro de Campos era um dos pseudônimos de Fernando Pessoa. Nunca mais publiquei outras poesias aqui que não fossem minhas. Coloco então logo duas deste grande poeta múltiplo.


Às vezes

Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...


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Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.


Álvaro de Campos

Para ser mulher



Para ser mulher,
precisa muito caminhar.
Precisa entender do amor,
e com ele pactuar.

Para ser mulher,
deve andar pelo tortuoso,
com passos leves e firmes,
e um coração amoroso.

Para ser mulher,
é preciso se contradizer,
sorrir, chorar, cobrar
e deixar o outro ser.

Para ser mulher,
tem que aceitar o desafio
imposto pelo mundo cruel,
como um homem vazio.

Para ser mulher,
deve sempre ter cheiro de rosa,
fitas no cabelo,
sorrisos e covas.

Para ser mulher,
cante uma canção de amor,
acredite e domine o destino
seja pra onde ele for.

Para ser mulher,
basta se conhecer plena,
ser dura e não se entregar
à qualquer coisa pequena.

Para ser mulher,
acolha o mundo em seu ventre.
Não há nesse mundo outro ser
que saiba o que sente.

Mulher,
palavra misteriosa.
Melodia em forma de corpo.
Alma em forma de prosa.

Kadydja Albuquerque (Março / 2010)

Wednesday, March 3, 2010

O dia em que eu assisti ao Coldplay



Meu primeiro contato com o Coldplay foi na época da faculdade enquanto escrevia a minha monografia. Não dei muita importância. Passou essa fase, diploma na gaveta e um Rio de Janeiro inteiro pra conhecer. Quando já morava lá com uma amiga, comecei a freqüentar a casa de outra que era fã da banda. Aí fui de fato apresentada ao Coldplay. Ouvíamos incansavelmente todas as canções do Parachutes. Logo, adotei Shiver como a canção que embalaria minhas ilusões. Isso foi em 2002, acho que no ano em que eles fizeram um show no Rio, mas eu era recém-formada, sem emprego e portanto sem grana, e não acompanhei essa outra amiga fã que, a muito custo, conseguiu entrar de graça no show no ATL Hall. Passou a primeira chance.

Depois, quando já morava em Lisboa, em 2004, eles fizeram duas apresentações na cidade. Já estava empregada, mas a grana era curta e a liberdade também. Meu namorado da época não gostava da banda e todas essas variáveis me fizeram perder mais uma oportunidade. Retornei ao Brasil, retornei a Aracaju e acompanhei os lançamentos como uma fã distante. Eles retornaram ao Brasil em 2007, mas também não pude assistir. Dessa vez acho que nem eu mesma tinha tanta esperança de um dia ir ao show dos caras.
Quando eles anunciaram a apresentação do Viva La Vida Tour na Apoteose, eu me prometi que iria nem que vendesse o meu carro. Comprei o ingresso ainda na venda para clientes do Credicard, em novembro do ano passado; comprei as passagens aéreas, e esperei. Quatro meses passaram mais rápido do que aquelas três horas guardando lugar antes do início do show. Como uma boa fã, eu já sabia o setlist, mas quem lembrava dele na hora?



Antes de começar o show, a Apoteose já lotada, veio a traiçoeira vontade de ir ao banheiro. Paula foi comigo para garantir que eu voltaria. No retorno árduo entre dezenas de “com licença” e “por favor”, a banda entrou no palco. Era 20h27. Fiquei um pouco desesperada porque eu havia guardado um local perto do alambrado que delimitava a área VIP da ralé (eu estava nesta última) e a cada passo que eu dava as pessoas se tornavam mais hostis. Eu argumentava que já estava lá antes e uns davam passagem. Quando não adiantava, eu usava a minha técnica desenvolvida em pipocas de micareta, e passava assim mesmo.

Pronto, cheguei ao local onde estavam os outros amigos e agora era curtir o show. Por curtir, entenda-se gritar, pular, cantar todas as músicas, agradecer a Deus por estar lá, reclamar com o casal da frente que tirava mais fotos deles do que prestava atenção, entre outras coisas. Life in Techicolor, Violet Hill, Clocks, tava amando tudo aquilo, prestando atenção em cada detalhe, mas ainda não havia surtado e tal. Foi quando eles começaram com In my Place e depois emendaram com Yellow. Covardia. A Apoteose inteira pulando e aquelas bolas amarelas gigantes passando de mão em mão. O palco completamente amarelo e a banda lá em cima dando o melhor.



Parênteses: o Coldplay é uma banda polêmica. Não pelo trabalho que fazem, mas pela recepção do seu trabalho pelas pessoas. Muitos amam, muitos odeiam. Respeito quem não gosta e não sou daquelas fãs que tentam catequizar os não-simpatizantes. Eu gosto, as músicas possuem uma relação direta com várias fases da minha vida e isso me basta. Mas mesmo que eu não gostasse, não há como achar que os caras são boçais. A interação deles com o público na Apoteose foi a mais sincera possível. Chris Martin se esforçou para falar português, pedia feedback da multidão e ainda tentava chegar o mais perto do público utilizando todos os espaços do palco.

Voltando... mais outras músicas e veio Fix You, Lost, e em seguida eles fizeram o que eu estava esperando desde que cheguei e vi aquele palco menor no meio da Apoteose. Ninguém acreditava em mim quando eu dizia: eles vão descer e vão tocar aqui, e nessa hora vai ter a chuva de borboletas. As meninas diziam: ah, que nada, você tá maluca que os caras virão aqui?

E eu estava certa, tirando a chuva de borboletas que ficou pra depois. Como acreditava realmente no que eu estava dizendo, me posicionei a 5 metros do palco. Acabou Lost e começou a tocar “Singing in the rain” enquanto eles desciam pelo corredor que dava acesso ao palco menor. Eu acreditava no que eu havia dito, mas não acreditava no que estava vendo. Há umas duas semanas, escrevi para o site oficial do Coldplay perguntando se havia chance deles tocarem Shiver no show do Rio. A resposta veio naquela hora. Chris posicionou o microfone para a direção em que eu estava e falou: Shiver.


Foto: Kaká Barbosa.



OK, ele nunca vai saber da minha existência, mas naquele momento ele estava cantando pra mim e eu não consegui cantar, nem fotografar, nem levantar as mãos pro alto, nem chorar e tampouco aplaudir. Fiquei em silêncio e lembrei de todas as vezes que ouvi aquela canção, e de quantas chorei. Lembrei das tardes de domingo no Rio ouvindo Parachutes, das caminhadas pelas ruas de Lisboa com meu discman, das manhãs no ponto de ônibus em Salvador indo para o trabalho, das noites quando estava recém-chegada em Aracaju e que durante seis meses eu ouvia essa canção antes de dormir tentando trazer de volta o passado. Lembrei do presente e das suas lições. E não chorei, não gritei, não tive pena de mim. A música me conectou a momentos muito fortes e eu percebia que já não havia nada em mim hoje que os quisesse de volta.


Foto: Kaká Barbosa.

Depois o show se tornou o resto do show pra mim. Emocionante, claro. Lovers in Japan e, finalmente, a chuva de borboletas. O bis com The Scientist. A chuva que não cessava. O apagar das luzes do palco e o acender das luzes da Apoteose. A comemoração cúmplice com os amigos. O retorno para casa. Quem é fã de algum artista ou de alguma banda, sabe da emoção desse encontro, ainda que coletivo, com o seu ídolo.


Molhados e Felizes.


Tudo foi perfeito como não poderia ser de outro jeito.

Tuesday, February 23, 2010

A caçula sempre intrometida


Independência é algo que sempre sonhamos em conquistar quando somos adolescentes. Durante muitos anos, quando ainda morava com meus pais e meus irmãos, eu sonhava com o dia que tivesse a minha própria casa, a minha privacidade, meu emprego e minha liberdade de viver a minha bagunça. Esse dia já chegou pra mim e até gosto de viver sozinha, pois já não sei como seria dividir o espaço com outra coisa viva que não tenha quatro patas e mie quando tem fome.

Hoje é aniversário da minha irmã, e em momentos como esse, penso o quão difícil é viver longe da família. É também nessas horas que percebo que já vivo longe há muito tempo, e quantas vezes perdi aniversários, dias das mães, dos pais, feriados, carnavais. Ingrid é minha irmã mais nova e temos uma diferença de 6 anos que, naturalmente, a cada ano se torna menor.

Quando éramos mais novas e dividíamos o mesmo quarto, havia briga, incompatibilidade de idades, de gênios, de formas de viver o espaço que pertencia a nós duas. Eu, adolescente, queria a privacidade para curtir a turbulência de descobertas e questionamentos que eu transferia para meus diários em um ritual que hoje já não existe. Ela, ainda criança, queria viver o lúdico, as brincadeiras de boneca, ou simplesmente me assistir sendo adolescente. Isso irritava, causava desentendimentos e eu desejava ter nascido no lugar do meu irmão – o único homem e com direito a um quarto só pra ele.

Não sei o quanto eu a influenciei ou a influencio. Talvez eu nem seja um bom exemplo de irmã. Distante, ocupada, e sempre leve e engraçada nos encontros porque breves. Também talvez isso nem importe muito. Os caminhos da vida ditam os protocolos que devemos seguir. O que importa na verdade é que tenho a minha família aqui, em algum lugar, sempre potencialmente perto, seja em pensamento, seja nos milhares de e-mails que trocamos sempre que há um assunto comum.

E hoje é o dia da minha irmã, a caçula “sempre intrometida”, como um dia escreveu meu pai em uma das suas poesias. E que ela gostou tanto do eufemismo que resolveu tatuá-lo. É isso, minha querida, seja na pele, na alma ou no sangue, estamos para sempre tatuadas uma na outra. Somos espelhos. Quando olho para você, me vejo muitas vezes como era no passado, mas desejo que o seu futuro seja ainda melhor do que o meu presente. E será.

Daqui, estarei sempre torcendo por você. E te parafraseando: e quem quer saber? ;-)
Parabéns!

Wednesday, February 17, 2010

Carnaval 2010: alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia...

Por conta dos shows do Coldplay e do BB King agora em fevereiro e março no Rio, eu havia planejado sacrificar meu carnaval e ficar em Aracaju, curtindo minha casa, meus gatos, meus livros novos e acompanhando a folia alheia pela internet. Mas como a vida é tudo, menos previsível, recebi o convite para ir ao Carnaval de Salvador dois dias antes de começar oficialmente o período momesco. Tudo se encaixava: a vontade de estar com os amigos, a pressão do meu pai em me ver na Bahia, o meu trânsito astral e a possibilidade de retornar ao carnaval soteropolitano com custo quase zero. Como eu não sou de dizer não ao destino, embarquei sem preconceitos e com a alma aberta.

O último carnaval em Salvador foi em 2005, e até então tinha sido, no quesito “Fechação em grupo”, a melhor viagem da minha vida. Mas eu ainda estava traumatizada com os carroceiros, os chutes na canela, e o carinho intenso da pipoca. Tá, como dessa vez o esquema seria All Inclusive e a pipoca era algo que encararia só de passagem, relaxei. No sábado, já comecei com o pé direito no Camarote do Nana. E eu que achava que freqüentava camarotes. Nunca vi uma estrutura tão profissional, e o mais perto que cheguei do carnaval da Bahia foi ver Bel entrando com Gilberto Gil pra fazer um show na passarela. Um momento lindo, seja porque eu já estava totalmente rendida ao meu ofício de chicleteira, ou seja porque eles chegaram “chegando” ao som de Andar com fé.

Sou fã de Gil, e se tivesse uma carteirinha de Gilberteira, eu com certeza exibiria uma na minha bolsa. Então, tirem daí a emoção que eu senti. Depois disso, adeus trios, avenida e abadás... eu já estava em outros ambientes do camarote, e pouco importava se a festa era em fevereiro ou em novembro. Comida à vontade e garçons, como diria meu amigo Rod Rocha, com raiva da bebida. É como soltar uma criança numa piscina de bolinha. A noite acabou mais do que bem, e acho que é por isso que as outras, mesmo divertidas, não bateram o meu retorno à folia baiana.

No domingo, em vez de chicleteira, virei andarilha encantada e admiradora de celebridades no Camarote da Contigo / Daniela Mercury. Também muita comida, mas dessa vez garçons menos raivosos. (Lícia Fábio, uma dica: Fresh não é modalidade de cerveja! Antes servir Skol com gelo). Também o clima era viáipi demais. Não consegui me soltar tanto, só na hora que o sambão começou e eu encontrei um grupo de subcelebridades que me acolheu durante 3 músicas porque meu primo já estava em outro mundo, e eu precisa socializar pra não me sentir sozinha. Vi muitos globais e só conseguia pensar em uma coisa: como eles são menores do que na TV. Ok, não ganhei meu dia por causa desses encontros, e o melhor momento na verdade foi quando Daniela passou pelo camarote e eu desci pra pipoca (sim, eu não fiquei lá logo na hora em que a dona chegou) para encontrar Rod e Oc. Entrei no bloco, fui expulsa, mas foi legal. Depois retornei pra lá e continuei me sentindo deslocada.

Segunda. Acordei indecisa. Pra onde vou? Podia ter escolhido mais um camarote, mas resolvi que precisava viver a experiência de sair em um bloco no Carnaval de Salvador antes de completar 30 anos, casar, ter filhos, virar Hare Krishna, morar na Europa, ou simplesmente morrer, como acontece com todo mundo. Seria muito arriscado deixar pro ano que vem, já que estou programando meu carnaval em outra cidade. Então, acionei os micareteiros Rod e Oc, peguei meu abadá do Papa, e fui relembrar os tempos de Com Amor e Bora Bora ao som de Claudia Leitte. Fiquei orgulhosa de mim porque eu ainda tenho pique pra encarar a avenida, embora eu pudesse ser facilmente a tia do bloco. Não vou comentar o que aconteceu nesta noite porque quero que vocês exercitem a imaginação. Hahahahaha... mas foi ótimo, tirando o prejuízo de 150 reais, que eu deixei em algum banheiro químico da Ondina.

Como eu não agüentaria duas noites no esquema bloco-pipoca-sanduiche em barraca suspeita-prejuízos em banheiros químicos, finalizei o carnaval no Camarote Ondina com minha irmã e o namorado. Ambiente que eu já havia me acostumado: comida à vontade, garçons raivosos e gente bonita. Nunca comi tantos churros na minha vida. Ganhei duas garrafinhas de Sagatiba por mérito e, depois de dois anos, comi acarajé novamente. Quanta superação nesse carnaval.

Agora retornando para casa, depois que eu já matei as saudades dos meus filhotes, penso que a minha decisão de curtir o carnaval na Bahia foi acertada. Foram quatro dias ao lado de pessoas muito queridas, conhecendo a folia sob uma outra perspectiva, aprendendo a dançar o rebolation e celebrando a vida sem medo de acordar cantarolando “Vale Night”. Sempre acho que devemos viver o que nos é colocado no caminho. E como uma boa brasileira, só posso gostar de estar no carnaval, porque o sentimento coletivo é de alegria e celebração. Seria bom que o resto do ano fosse assim. Ou talvez não, né, porque do jeito que eu sou intensa, reduziria minha expectativa de vida em muito.

É isso, gente. Muito tempo sem postar no blog. Continuo escrevendo minhas poesias, meus contos, meus devaneios latentes nesta cabecinha a mil. Mas são tão meus que o sentimento de posse não me deixa dividir. Então resolvi contar um pouco do meu carnaval. Agora é preparação para o momento mais esperado em 2010: o show do Cold no Rio daqui a 10 dias!! Já comecei a sonhar com o Chris, hoje já acordei ouvindo os caras, e com certeza depois contarei aqui esse momento se eu não tiver desmaiado na segunda música.

Agora vamos nessa que o ano começa...